Os The Darma Lóvers lançam novo disco inspirando a reflexão, mas sem perder a leveza

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Zen rock ou mantras pop: Darma Lóvers cantam sobre o que vivem e acreditam, unindo folk, pitadas psicodélicas e meditação

(por Andréia Martins)

Tudo começou quando ouvi a faixa Peixes, do novo disco de Mariana Aydar, Peixes, Pássaros, Pessoa. Um verso ficou na cabeça durante dias: “… nós morremos como peixes / com o amor que não vivemos / satisfeitos mais ou menos…”.

Por isso, decidi ir atrás dos autores de tais versos, e cheguei aos gaúchos do Os The Darma Lóvers, “one band… a lot of music”, como diz o perfil da banda, que já tem 10 anos de estrada, no MySpace.

Um pedido de entrevista por email e a resposta veio rápida, no dia seguinte. “Podemos fazer a entrevista sim, mas tem que ser antes de quinta-feira, pois entro num retiro”. Era Nenung, vocalista da banda, aceitando a entrevista de modo nada convencional.

Além de Nenung (voz e violão), integram Os The Darma Lóvers: Irínia (voz; que usa o nome Yang Zam), 4nazzo (guitarra), Thiago Heinrich (baixo e piano), Sassá (percussão) e Jimi Joe (guitarra de 12 cordas).

A banda mistura folk, doses de psicodelia, cores e meditação. Isso mesmo. Parte de seus integrantes é adepta à prática, conseguindo de modo, curioso, conciliar a correria da vida de músicos com a tão sonhada paz de espírito.

“A vida na estrada vai surgindo de acordo com as condições. Seres humanos são basicamente dependentes de condições, então aproveitamos os espaços pra fazer coisas igualmente importantes. Eu priorizo a prática da meditação por ser muito básica pra minha saúde e sanidade.  Em alguns momentos é difícil parar, mas quando abre uma clareira fazemos um pic-nic”, diz Nenung.

Do rock ao zen rock

Fã de Nick Drake, Stones – dos 70 -, Beatles, Clash, Itamar Assumpção, Fellini (banda paulistana), Husker Du, Blur, e “melodias com ruído”, antes de apostar no lado zen da música, Nenung agitava em uma banda de rock chamada Baraty Oriental, até que se cansou do rock, e depois de um encontro com Chagdud Rinpoche (lama, que desde 1995 mora no Brasil), em Três Coroas, tudo mudou.

“Ele estava ali, quase um sonho, um verdadeiro mestre realizado na meditação autêntica. Eu e a Irínia mergulhamos direto e disso veio a inspiração”, diz Nenung. A partir daí, nasceu uma música feita com novas perspectivas e intenções.

Quanto ao nome, bastou montar um quebra-cabeça. Os: “Por sermos brasileiros”. The: “É uma brincadeira por gostarmos de The Who, The Rolling Stones e tal”. Darma: “É caminho interno. Lovers: “Porque gostamos muuuito de estar nele”.

Novo disco e a mágica do mestre Kassin

capa_cx_darmaCompletando 10 anos de estrada e vivendo um momento de mais visibilidade, a banda está em fase de recriação, um tipo de crise do bem, “bem boa”, nas palavras de Nenung. “Depois de 10 anos, nos vemos na condição de repensar e recriar a banda sem medo de perder espaço ou público. Não gostamos da idéia de acomodação e vamos mudar enquanto existirmos”.

Esse momento fica claro no recém-lançado disco Simplesmente, o 5º da banda, produzido por Kamal Kassin, que já havia trabalhado com a banda no disco Laranjas do Céu e já produziu nomes como Los Hermanos, Caetano Veloso, Vanessa da Mata, entre outros. Para Nenung, o trabalho de Kassin foi fundamental para o resultado final do disco e amadurecimento musical da banda.

“O Kassin fez toda a diferença por ter, além de experiência, a sensibilidade e a tranquilidade de nos incentivar e alertar dos erros e vícios no decorrer do processo, sem nunca se alterar ou perder o foco de fazer desse disco, um disco precioso. Um mestre de fato com uma extrema generosidade. Aprendemos muito com ele”.

No disco, entre as canções mais fortes estão a contagiante Simplesmente, que abre o disco com uma harmonia entre letra e melodia que transforma a música em um tipo de mantra pop, se não for viajar demais; Júlia, composta para ajudar uma menina a enfrentar e superar um momento difícil; Canção para Minha Morte, uma reflexão sobre essa tal figura que a gente, tão cedo não quer encontrar; a crítica social com Gente de Classe; a pura poesia de Lógica da Liberdade ; e Srta Saudade da Silva, escolhida para ser o primeiro single do disco e uma declaração sobre a brasilidade, segundo a ótica da banda.

“Ela representa a declaração de brasilidade da banda, sem cair em padrões de samba de roda ou coisa parecida, já que não é mesmo a nossa praia. Mas, por outro lado, além da temática consideramos ela uma canção totalmente brasileira. Não é um rock , nem reggae nem nada rotulável”.

Parceria com Mariana Aydar

Kassin acabou fazendo a ponte entre o Darma Lóvers e Mariana Aydar (ele também produziu o disco Peixes, Pássaros, Pessoas). Ao ouvir Peixes, Nenung conta que ela se apaixonou pela música, a primeira composição dele no Darma Lóvers.

“Conversamos bastante e ela demonstrou estar super entusiasmada em criar uma nova leitura de Peixes. Temos um carinho especial pela música e pela ideia de lembrar que o sofrimento não se resume aos nossos iguais. Todos são iguais na dor, e é importante saber e ter gente para reproduzir a lembrança da nossa responsabilidade e das escolhas que fazemos na vida”.

Para a interpretação de Mariana, Nenung é só elogio. “Eu gostei pacas da versão e da interpretação dela. Ficamos trifelizes. Gostamos muito de ter a música compartilhada”.

A linha não é reta

Se algo não mudou nesses dez anos de estrada para Os The Darma Lóvers foi a vontade de não andar em linha reta. Até hoje, a trajetória da banda seguiu um caminho natural, espontâneo, sem muito planejamento. E a ideia é continuar assim. “A gente dança”, diz Nenung.

“Nossa batida é outra, e é isso o que atrai as pessoas. O que podemos garantir é que os shows estão melhores do que nunca e temos um movimento criativo no interior da banda, que fica só esperando pra florescer. Mas, como budistas, levamos sempre em conta a ‘impermanência’, que também é mãe da criatividade. Então vamos avançando, abertos pro que surgir no horizonte. Tudo vai se movendo e mudando. A linha não é reta”.

Hoje, a banda que já foi chamada de criadora do zen rock, parece estar muito mais preocupada em criar, fazer músicas, ser livre de conceitos. “Hoje nos categorizam como folk rock psicodélico, mas quem nos ouve sabe que nossa música é Darma Lóvers. Isso é o que nos interessa. Queremos mesmo é ser companhia, inspiração e trilha sonora do caminho da liberdade de quem nos ouve”. Com a trilha sonora escolhida, agora só resta encontrar o tal caminho.

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Uma resposta para “Os The Darma Lóvers lançam novo disco inspirando a reflexão, mas sem perder a leveza

  1. A música “Simplesmente” vale mais do que um intensivão no terapeuta! Muito bom sentir essa leveza musical.

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