Som que vem do cerrado: a voz, atitude e diversidade de Ellen Oléria

 
 
 

 

A cantora Ellen Oléria

 

[por Carolina Cunha]

“Basalto que emana dos meus poros… a minha consciência é pedra neste instante”. Não por acaso esses versos saem da voz da brasiliense Ellen Oléria. A ciência classifica o basalto como uma rocha vulcânica, negra, dura e resistente, mas que forma vazamentos extensos. Um efeito parecido com o que Ellen provoca quando solta sua voz, com forte presença de palco. Uma pedrada elegante, que flui em busca da boa música.

Compositora e violonista, Ellen não é nova na cena e está na linha de frente das cantoras da capital federal. Faz música brasileira, com nuances de jazz e black music. Mas é sua voz, marcante e versátil, que brilha forte neste basalto sonoro.

Em alguns momentos, Ellen solta o vozeirão em frases galgadas na levada do hip hop ou num ritmo suingado – pura energia. Em outros, a ginga dá espaço para uma delicadeza, com melodias que chamam atenção. O segredo desta força, Ellen revela na lata: “Paixão”.

Tudo isso pode ser conferido em Peça, primeiro disco da cantora, lançado em 2009. O disco reúne um repertório acumulado em mais de dez anos de estrada e conta com a companhia de um quarteto competente: Rodrigo Bezerra (guitarra), Paula Zimbres (baixo), Célio Maciel (bateria) e Felipe Viegas (teclado).

Do Chaparral a GOG

“Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”, reverbera Ellen e sua consciência negra na música Testando, um de seus hits. Ellen canta muitas identidades e experiências: mulher, negra, lésbica. Sua arte também é um meio para o engajamento e reflexão, com letras tão românticas quanto sociais.

Como muitas periferias brasileiras, o Chaparral, no Distrito Federal, é um lugar violento e um pouco esquecido. Ali, num lugar que forma “pedras duras”, Ellen passou toda a sua infância e adolescência. Escutou o forró e o baião do pai sanfoneiro, cantou num coro de igreja batista, arranhou sozinha os primeiros acordes de violão e tomou gosto pelo rap.

Formada em artes cênicas pela UNB, Ellen encarou a música como profissão bem cedo, aos 17 anos. Chegou a participar de algumas bandas até seguir voo solo. Hoje é dona uma carreira sólida e tem um público cativo que lota seus shows.

 O salto para a visibilidade do trabalho de Ellen contou com a força do maior trovador do rap made in Brasília: GOG. A parceria duradoura começou em 2006, quando a cantora participou da faixa Carta à mãe África, do disco Aviso às gerações. Hoje, a dupla frequentemente realiza shows juntos. GOG também participou do disco de Ellen e, com ele, ela se conectou definitivamente ao universo do hip hop. “Eu sou também fruto da transformação do hip hop nas periferias do Brasil”, revela.

Batemos um papo com a cantora sobre  música independente, parcerias e inspirações. Leia abaixo.

O disco Peça mistura muitos gêneros musicais e estilos. Como você se define como cantora?

Canto música brasileira. Isso já abre tantas possibilidades que eu adoro dizer isso. Entre afoxés, forrós, carimbos, todos os tipos imagináveis de sambas, choros, bossas, maxixes, emboladas, repentes, bregas, tecnobregas, marabaixos, xotes, toadas, eu estarei por aí. Sem esquecer o que a gente aprendeu de bom com a diáspora africana nas Américas e no Caribe como salsa, a cumbia, o merengue, o jazz, o funk, o rock, o hip hop. Resumindo, sou uma cantora curiosa.

Fale um pouco do seu repertório, como é seu processo criativo?

Meu repertório autoral se conecta muito com meu cotidiano. As poetas que moram em volta de mim (a sabedoria da minha mãe, por exemplo, coisas que ela aprendeu com a mãe dela), ou as mais distantes que se mostram nos livros ou em suas canções. As bandas, cantoras/es, instrumentistas, letristas isso tudo acaba dando caminho pras levadas que faço no violão também. Às vezes escrevo alguma coisa que fica guardada um tempo e um dia, esse verso se encaixa na levada que surgiu sem letra. Fico tão fissurada compondo que quando termina o dia parece que corri uma maratona.

Você lançou um cd independente. Como foi colocar a mão na massa, sem o apoio de uma gravadora ou produtores?

Ainda tem sido. Gravamos o disco. Agora precisamos fazer ele circular. Antes disso, foi muito suor e bateção de cabeça pra compor, pra arranjar e pra pagar as contas. Mas sempre contamos com apoio de muitas maneiras. Muita gente comprou esse projeto, entre músicos, equipe técnica, a minha produtora que se dedica mais a cada edital, compositores parceiros. E vamos ver até onde as pernas aguentam chegar. A música não precisa de CNPJ pra ser. Ela existe independente disso, fala por ela mesma. Então vamos fazer música, legal. Mas vamos aprender a fazer negócios também. 

Você disponibilizou todo o disco para download gratuito na internet. Como enxerga a questão dos direitos autorais? 

Popularidade nunca atrapalhou artistas. O desejo de ter sua música conhecida é partilhado pela categoria. E durante algum tempo tivemos caminhos restritos pra isso. A internet surge num momento interessante pra nós artistas já que potencializa o acesso a uma nova (ou antiga…) via de difusão. Não é necessário ser milionário pra o seu som tocar fora do Brasil. Basta um clique.

Você acha que esse tipo de distribuição pode ser prejudicial ao artista?

Muita gente se assusta com as redefinições da indústria fonográfica.  Acho que é um direito meu como artista disponibilizar minha produção gratuitamente, continuando o ciclo. Mas foi preciso recorrer a estratégias mais adequadas à realidade do mercado fonográfico que não abre as suas portas pra tod@s democraticamente. A gratuidade foi um caminho pra uma gestão sustentável.

Vimos você no show do Gog, da Mostra Cultural da Cooperifa, em São Paulo. Comente sobre a parceria com o GOG e a sua relação com o movimento hip-hop.

Aprendi a ouvir rap com meu irmão Dadá. Conheci discos do GOG assim. Tive a felicidade de receber um convite pra gravar a faixa Carta à mãe África. Aprendi a respeitar o movimento hip hop. Vi a revolução que o hip hop traz pras periferias dentro da minha própria casa. Muitas vezes fomos salvas por atitudes cantadas ao som daquele pancadão. O GOG é um padrinho. Um grande amigo. Me deu motivação pra acreditar na influencia rap do meu som. Porque por muito tempo não cantei os raps que eu escrevia. Até entender que o hip hop me acolheu de fato. Isso é pra dar orgulho, mas também muita responsabilidade porque represento essa casa.

Você é uma das poucas cantoras da MPB que se assume publicamente como lésbica.

Quando ouço a palavra “assumir” sempre penso em criança levando bronca de mãe depois de mentir sobre uma travessura: “Assume! Foi você que quebrou!”. Não assumi ser lésbica nesse sentido de tomar a carga. Só sou lésbica. Eu existo de muitas formas. Mulher, negra, escorpiana, cantora… lésbica é uma das muitas formas que me identificam.

É difícil ter esta atitude na música?

É difícil ter essa atitude sim. A música só retrata o que trazemos de bagagem. Porque a profecia está sujeita ao profeta. Os caras podem tranquilamente subir no palco e falar que essa música foi feita pra mulher que eles amam. E não tem medo de sofrer represálias. Eu também amo. E canto os meus amores. Infelizmente, muita gente me odeia por quem eu amo. Paradoxal. Mas verdadeiro. Que bom que não estou sozinha. Porque afinal, somos incontáveis nessa rede de solidariedade. Solidariedade é mais importante.

Em uma entrevista para o jornal Correio Brasiliense, você disse que cantava a história de uma mulher negra, criada no Chaparral e lésbica. Você já sofreu algum tipo de preconceito e se vê como um modelo de resistência?

Já sofri vários processos discriminatórios. De várias ordens. Mas ser modelo de resistência só quando todas nós formos. Quando reconhecermos que a Dona Maria que lava a minha roupa é tão importante quanto o meretíssimo juiz. Minha irmã é modelo de resistência. Minha mãe. Minha avó foi. Minha vizinha. Minhas primas. E essas incontáveis sobreviventes.

Sua carreira em Brasília parece consolidada. Você tem planos de turnê em outros estados como Rio, São Paulo? 

Temos muitos planos. Pouca grana. Mas temos, como diria Nina Simone, nossas mãos, nossos pés, nossa cabeça. Vamos dar um jeito e certamente vamos tocar por esse Brasil. Além de trabalhar por aqui, estamos abertas pra convites. (rs) Leve Ellen Oléria para o seu evento!

Quais são os planos para os próximos meses?

Tenho parado muito pra escrever. Temos o DVD todo captado e estamos correndo atrás de grana pra concluir o projeto. Espero que possamos lançar o DVD até agosto desse ano.Mais depressa devem sair alguns clipes. Vamos trabalhar o disco “Peça” até que ele comece a andar sozinho.E vamos que vamos que o som não pode parar! Salve moçada! Axé!

Para ouvir acesse: My Space ou o Site Oficial de Ellen Oléria.

Contato para shows: (61) 9901- 0099 ou suelenecouto@hotmail.com

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