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Recife Lo-fi: em coletânea, Zeca Viana reúne variedade de sons e influências, unidas pelo sotaque

Foto: Bruna Rafaella / Divulgação Recife Lo-fi

 

[por Andréia Martins]

Zeca Viana é o que a gente pode chamar de um multiman. Baterista do Volver, tem projetos paralelos com outras bandas, projeto solo, estuda filosofia, é blogueiro e videomaker, canta, compõe, além de também tocar guitarra.

No meio desse turbilhão de atividades e ideias, Zeca arrumou um tempinho para organizar uma coletânea com o que há de melhor na nova safra da música de Recife: a Recife Lo-Fi, uma compilação gravada de um jeito bem caseiro e que tem como objetivo maior divulgar essas novas bandas, 21 ao todo. Entre elas, alguns artistas já bem conhecidos como Lulina e a banda Julia Says.

A variedade de sons e influências, unidas pelo sotaque e pela geografia, apresentam uma cena rica em diversidade, nem tão relacionada assim ao movimento Mangue Beat, o que às vezes parece sempre ser uma obrigação de artistas das bandas de lá.

O Palco Alternativo bateu um papo com Zeca, por e-mail, para saber um pouco mais sobre esse projeto, que em breve terá o seu volume 2. Puxe sua cadeira e confira!

Palco Alternativo – Quanto tempo você levou para garimpar novos sons para a coletânea? Fale um pouco de quando surgiu a ideia e do que você considerou ao escolher cada uma das 21 bandas.
Zeca Viana – Na verdade escuto muitas bandas recifenses pelo próprio convívio com os amigos, etc. Eu sempre pensei em fazer algo nesse sentido, de juntar essas bandas/artistas, um forma de divulgar essa produção. Então a ideia foi se formando na temporada que passei em São Paulo. Fui convidando bandas, preparando todo o material. Chegando em Recife, recebi apoio do Recife Rock, do Coquetel Molotov, da Revista O Grito e a Agência Alavanca, de São Paulo, além da TramaVirtual (que lançou a coletânea nacionalmente) que indicaram algumas bandas. No fim das contas, tivemos uma grande reunião entre amigos.

Quando se fala em Recife, especialmente sobre música, é quase impossível não ter como referência a música de Chico Sciene, o manguebeat. Como ouvinte e realizador, no que essa geração de bandas que você reuniu tem em comum ou o que mais a difere do manguebeat?
ZV – Acho que o Manifesto Mangue é antes de tudo uma ideia. Temos que respeitar isso e pensar dessa forma. Muitas vezes a leitura do Manifesto Mangue é mal feita, principalmente no sentido de exclusão: ou você tem um tambor na banda ou não é de Recife. A mídia em geral e os poderes públicos trabalharam muito com essa lógica. Por exemplo, a Stela Campos estava no olho dos acontecimentos, tinha ligação direta com Chico Science, cantava em inglês e não tinha tambor de maracatu na sua banda. Ela era do movimento MangueBeat? O que temos que entender é essa abertura para várias possibilidades que o manifesto visava. A ideia é antes inclusiva, de abertura do cenário para qualquer atividade artística.

O que vejo hoje é o que sempre vi acontecer em Recife: muitas bandas circulando, dialogando artisticamente com a cidade. Como eu disse, o manifesto foi muito mal lido pela mídia e pelos poderes públicos que trabalharam por muito tempo com uma lógica de “quase aversão ao que não é regional”. Hoje a coisa está mudando. Algumas bandas que cantam em inglês praticamente não entravam em editais, os concursos de música julgavam valores como “originalidade” de forma equivocada, etc. Chico Science usava um termo em inglês no seu nome, muita gente não entendeu o que isso queria dizer.

Qual é a Recife que vamos conhecer ouvindo essa coletêanea?
ZV – É o Recife gravado em casa. É um convite para que todos possam conhecer mais de perto essas produções, entrar nesses home studios e participar, puxar uma cadeira e conversar sobre música. Pensamos em abrir espaço para mostrar algumas produções praticamente inéditas e ainda artistas já conhecidos como Lulina, por exemplo. Não queremos restringir essa coletânea a “bandas lo-fi”, na verdade é uma coletânea de “músicas gravadas de forma lo-fi”, o que abre possibilidade para todos participarem. É um motivo para festejarmos e fazer o que gostamos, ouvir e falar sobre música.

Há alguma pretensão em levar esse projeto virtual para a estrada, em algo como um festival “Recife Lo-fi”?
ZV – Realizamos a Festa Recife Lo-fi no dia 5 de fevereiro em Recife, num lugar muito bacana chamado Quintal do Lima que abraçou a ideia. Todos da coletânea estavam presentes, tivemos shows com artistas da coletânea, discotecagem (com várias faixas da coletânea também), foi uma grande festa. Boas conversar, trocas de experiências, parcerias, tudo está acontecendo de uma forma bacana. Ficamos animados, a festa foi um sucesso, um público muito interessante compareceu, provavelmente faremos outras festas Recife Lo-Fi.

Das bandas participantes, você poderia citar umas três que, você acredita, vão dar o que falar antes do que esperam?
ZV – Gosto muito do trabalho de D Mingus, Jalu Maranhão, Matheus Mota, Lina Jamir, Allen Jerônimo, é difícil falar, tem muita gente bacana.

Tanta gente jovem reunida, diversas músicas pra lá e pra cá, alguma história curiosa ou engraçada durante a produção dessa coletânea, ou algo que tenha ocorrido com as bandas em suas gravações caseiras?
ZV- Na verdade foi engraçado quando a gente foi tirar as fotos de divulgação com todos juntos. É um batalhão de músicos, é difícil juntar tanta gente, coordenar. Fizemos a foto no centro do Recife, na Praça do Derby. Quando cheguei lá levei um susto, é muita gente! Sabe aqueles megafones? Pronto, acho que da próxima vez vou levar um desses. Mas a foto ficou ótima, minha companheira, a artista plástica Bruna Rafaella fez um bom trabalho fotográfico e de arte da coletânea. Acho que fizemos todos um bom trabalho de equipe.

Você é baterista do Volver, tem projetos paralelos com outras bandas, projeto solo, estuda filosofia, é blogueiro e videomaker, canta, compõe além de também tocar guitarra e agora ser uma espécie de “mecenas” da música de Recife. O que mais cabe no pacote de habilidades de Zeca Viana?
ZV – Não sei, vou fazendo aquilo que sinto necessidade, tento me expressar. Apesar de fazer música com a Volver e meu projeto solo gosto de trabalhar com vídeo, fotografia, pintura, gosto de desenhar também. Penso muito em desenvolver um trabalho em artes plásticas, quem sabe. Provavelmente farei algo nesse sentido. Gosto como se dão as relações artisticas nas obras de arte, é algo que me atrai. Dá pra trabalhar com vídeo e audio, música e desenho. Gosto dessas possibilidades.

Como vai ser o 2010 do Volver?
ZV – Estamos preparando o primeiro DVD da Volver gravado no lançamento do Acima da Chuva no Teatro de Santa Isabel. Foi lindo o show, com teatro lotado, todos cantando, muito bonito. Esperamos gravar o nosso terceiro disco ainda esse ano também.

E seus próximos projetos?

ZV – No meu projeto solo fiquei muito feliz com a eleição do meu primeiro disco solo, Seres Invisíveis, como o 3º Melhor Disco Nacional de 2009 pelo TramaVirtual, estou experimentando diferentes formatos, fiz alguns shows com o Conjunto Imaginário com uma pegada mais rock, fiz um EP chamado Trilha Sonora com temas instrumentais para um curta metragem de Leonardo Lacca, estou experimentando. Pretendo gravar meu segundo disco ainda esse ano e, no mais, ouvir bastante música, fazer muitos amigos e trabalhar bastante.

Para ouvir, baixar e compartilhar a coletânea Recife Lo-fi:

http://www.recifelofi.blogspot.com (blog oficial do projeto)

http://www.reciferock.com.br

http://www.tramavirtual.com.br

Para ouvir os sons de Zeca: http://www.myspace.com/zecaviana

Som que vem do cerrado: a voz, atitude e diversidade de Ellen Oléria

 
 
 

 

A cantora Ellen Oléria

 

[por Carolina Cunha]

“Basalto que emana dos meus poros… a minha consciência é pedra neste instante”. Não por acaso esses versos saem da voz da brasiliense Ellen Oléria. A ciência classifica o basalto como uma rocha vulcânica, negra, dura e resistente, mas que forma vazamentos extensos. Um efeito parecido com o que Ellen provoca quando solta sua voz, com forte presença de palco. Uma pedrada elegante, que flui em busca da boa música.

Compositora e violonista, Ellen não é nova na cena e está na linha de frente das cantoras da capital federal. Faz música brasileira, com nuances de jazz e black music. Mas é sua voz, marcante e versátil, que brilha forte neste basalto sonoro.

Em alguns momentos, Ellen solta o vozeirão em frases galgadas na levada do hip hop ou num ritmo suingado – pura energia. Em outros, a ginga dá espaço para uma delicadeza, com melodias que chamam atenção. O segredo desta força, Ellen revela na lata: “Paixão”.

Tudo isso pode ser conferido em Peça, primeiro disco da cantora, lançado em 2009. O disco reúne um repertório acumulado em mais de dez anos de estrada e conta com a companhia de um quarteto competente: Rodrigo Bezerra (guitarra), Paula Zimbres (baixo), Célio Maciel (bateria) e Felipe Viegas (teclado).

Do Chaparral a GOG

“Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”, reverbera Ellen e sua consciência negra na música Testando, um de seus hits. Ellen canta muitas identidades e experiências: mulher, negra, lésbica. Sua arte também é um meio para o engajamento e reflexão, com letras tão românticas quanto sociais.

Como muitas periferias brasileiras, o Chaparral, no Distrito Federal, é um lugar violento e um pouco esquecido. Ali, num lugar que forma “pedras duras”, Ellen passou toda a sua infância e adolescência. Escutou o forró e o baião do pai sanfoneiro, cantou num coro de igreja batista, arranhou sozinha os primeiros acordes de violão e tomou gosto pelo rap.

Formada em artes cênicas pela UNB, Ellen encarou a música como profissão bem cedo, aos 17 anos. Chegou a participar de algumas bandas até seguir voo solo. Hoje é dona uma carreira sólida e tem um público cativo que lota seus shows.

 O salto para a visibilidade do trabalho de Ellen contou com a força do maior trovador do rap made in Brasília: GOG. A parceria duradoura começou em 2006, quando a cantora participou da faixa Carta à mãe África, do disco Aviso às gerações. Hoje, a dupla frequentemente realiza shows juntos. GOG também participou do disco de Ellen e, com ele, ela se conectou definitivamente ao universo do hip hop. “Eu sou também fruto da transformação do hip hop nas periferias do Brasil”, revela.

Batemos um papo com a cantora sobre  música independente, parcerias e inspirações. Leia abaixo.

O disco Peça mistura muitos gêneros musicais e estilos. Como você se define como cantora?

Canto música brasileira. Isso já abre tantas possibilidades que eu adoro dizer isso. Entre afoxés, forrós, carimbos, todos os tipos imagináveis de sambas, choros, bossas, maxixes, emboladas, repentes, bregas, tecnobregas, marabaixos, xotes, toadas, eu estarei por aí. Sem esquecer o que a gente aprendeu de bom com a diáspora africana nas Américas e no Caribe como salsa, a cumbia, o merengue, o jazz, o funk, o rock, o hip hop. Resumindo, sou uma cantora curiosa.

Fale um pouco do seu repertório, como é seu processo criativo?

Meu repertório autoral se conecta muito com meu cotidiano. As poetas que moram em volta de mim (a sabedoria da minha mãe, por exemplo, coisas que ela aprendeu com a mãe dela), ou as mais distantes que se mostram nos livros ou em suas canções. As bandas, cantoras/es, instrumentistas, letristas isso tudo acaba dando caminho pras levadas que faço no violão também. Às vezes escrevo alguma coisa que fica guardada um tempo e um dia, esse verso se encaixa na levada que surgiu sem letra. Fico tão fissurada compondo que quando termina o dia parece que corri uma maratona.

Você lançou um cd independente. Como foi colocar a mão na massa, sem o apoio de uma gravadora ou produtores?

Ainda tem sido. Gravamos o disco. Agora precisamos fazer ele circular. Antes disso, foi muito suor e bateção de cabeça pra compor, pra arranjar e pra pagar as contas. Mas sempre contamos com apoio de muitas maneiras. Muita gente comprou esse projeto, entre músicos, equipe técnica, a minha produtora que se dedica mais a cada edital, compositores parceiros. E vamos ver até onde as pernas aguentam chegar. A música não precisa de CNPJ pra ser. Ela existe independente disso, fala por ela mesma. Então vamos fazer música, legal. Mas vamos aprender a fazer negócios também. 

Você disponibilizou todo o disco para download gratuito na internet. Como enxerga a questão dos direitos autorais? 

Popularidade nunca atrapalhou artistas. O desejo de ter sua música conhecida é partilhado pela categoria. E durante algum tempo tivemos caminhos restritos pra isso. A internet surge num momento interessante pra nós artistas já que potencializa o acesso a uma nova (ou antiga…) via de difusão. Não é necessário ser milionário pra o seu som tocar fora do Brasil. Basta um clique.

Você acha que esse tipo de distribuição pode ser prejudicial ao artista?

Muita gente se assusta com as redefinições da indústria fonográfica.  Acho que é um direito meu como artista disponibilizar minha produção gratuitamente, continuando o ciclo. Mas foi preciso recorrer a estratégias mais adequadas à realidade do mercado fonográfico que não abre as suas portas pra tod@s democraticamente. A gratuidade foi um caminho pra uma gestão sustentável.

Vimos você no show do Gog, da Mostra Cultural da Cooperifa, em São Paulo. Comente sobre a parceria com o GOG e a sua relação com o movimento hip-hop.

Aprendi a ouvir rap com meu irmão Dadá. Conheci discos do GOG assim. Tive a felicidade de receber um convite pra gravar a faixa Carta à mãe África. Aprendi a respeitar o movimento hip hop. Vi a revolução que o hip hop traz pras periferias dentro da minha própria casa. Muitas vezes fomos salvas por atitudes cantadas ao som daquele pancadão. O GOG é um padrinho. Um grande amigo. Me deu motivação pra acreditar na influencia rap do meu som. Porque por muito tempo não cantei os raps que eu escrevia. Até entender que o hip hop me acolheu de fato. Isso é pra dar orgulho, mas também muita responsabilidade porque represento essa casa.

Você é uma das poucas cantoras da MPB que se assume publicamente como lésbica.

Quando ouço a palavra “assumir” sempre penso em criança levando bronca de mãe depois de mentir sobre uma travessura: “Assume! Foi você que quebrou!”. Não assumi ser lésbica nesse sentido de tomar a carga. Só sou lésbica. Eu existo de muitas formas. Mulher, negra, escorpiana, cantora… lésbica é uma das muitas formas que me identificam.

É difícil ter esta atitude na música?

É difícil ter essa atitude sim. A música só retrata o que trazemos de bagagem. Porque a profecia está sujeita ao profeta. Os caras podem tranquilamente subir no palco e falar que essa música foi feita pra mulher que eles amam. E não tem medo de sofrer represálias. Eu também amo. E canto os meus amores. Infelizmente, muita gente me odeia por quem eu amo. Paradoxal. Mas verdadeiro. Que bom que não estou sozinha. Porque afinal, somos incontáveis nessa rede de solidariedade. Solidariedade é mais importante.

Em uma entrevista para o jornal Correio Brasiliense, você disse que cantava a história de uma mulher negra, criada no Chaparral e lésbica. Você já sofreu algum tipo de preconceito e se vê como um modelo de resistência?

Já sofri vários processos discriminatórios. De várias ordens. Mas ser modelo de resistência só quando todas nós formos. Quando reconhecermos que a Dona Maria que lava a minha roupa é tão importante quanto o meretíssimo juiz. Minha irmã é modelo de resistência. Minha mãe. Minha avó foi. Minha vizinha. Minhas primas. E essas incontáveis sobreviventes.

Sua carreira em Brasília parece consolidada. Você tem planos de turnê em outros estados como Rio, São Paulo? 

Temos muitos planos. Pouca grana. Mas temos, como diria Nina Simone, nossas mãos, nossos pés, nossa cabeça. Vamos dar um jeito e certamente vamos tocar por esse Brasil. Além de trabalhar por aqui, estamos abertas pra convites. (rs) Leve Ellen Oléria para o seu evento!

Quais são os planos para os próximos meses?

Tenho parado muito pra escrever. Temos o DVD todo captado e estamos correndo atrás de grana pra concluir o projeto. Espero que possamos lançar o DVD até agosto desse ano.Mais depressa devem sair alguns clipes. Vamos trabalhar o disco “Peça” até que ele comece a andar sozinho.E vamos que vamos que o som não pode parar! Salve moçada! Axé!

Para ouvir acesse: My Space ou o Site Oficial de Ellen Oléria.

Contato para shows: (61) 9901- 0099 ou suelenecouto@hotmail.com

De instrumentista a artista: Meno Del Picchia abre seu baú de heranças pessoais e musicais

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[por Andréia Martins]

No ambiente onde cresceu Meno Del Picchia, em Bragança Paulista, o gosto pela arte foi passado de pai para filho. O pai era médico, mas pintava, esculpia e tocava piano por puro prazer. Com o avô materno Zicão, Meno descobriu o som das raízes brasileiras como a catira, a moda de viola e a Folia de Reis. Do bisavô paterno, o poeta e pintor Menotti Del Picchia, herdou o lado modernista. Tudo era um conjunto de pistas do que o futuro reservava para Meno: pinturas, esculturas ou música. A escolhida foi a última opção.

“A música não foi exatamente natural, fui estudar com professores de fora da família e fui me envolvendo. Com certeza essas referências em casa me empurraram para o lado da arte como profissão, como ganha pão e diria até como missão”, conta Meno ao Palco Alternativo.

No início da década de 90, Meno passou a estudar música, dando início às primeiras bandas e parcerias. Agora, depois de anos tocando com nomes como Bocato, Tião Carvalho, Ricardo Teté, Danilo Moraes, Ricardo Herz e Fabiana Cozza, entre outros, ele se desafia ao lançar seu primeiro disco, Meno Del Picchia, acompanhado de Fê Sztok (guitarras e voz), Henrique Alves (baixo) e Cláudio Oliveira (bateria).

A sólida experiência como músico não facilitou a nova empreitada de Meno, que  agora se revela para o público mostrando seu lado compositor e cantor.

“É muito mais fácil você acompanhar um artista do que ser o artista, dar a cara pra bater, se arriscar, mostrar suas criações que, de certa forma, refletem um pouco sua intimidade, sua essência, valores e ideias acerca do mundo. O instrumentista fica mais escondido e sua principal preocupação é tocar bem naquele show”, conta ele.

O disco mistura, em 12 canções, rock (nas faixas Perfeição, Sofá, Duvidar de Mim com guitarras marcantes nas músicas), samba (Quando ela samba, A poetisa que casou, Castelo de Pão, Carapia, mais um samba jazz), MPB e baladas, como Acaso, Causar, My Eyes Contact, Receio bobo que, conquista com um verso fofo: “Que receio bobo foi não dar cafuné / Que receio bobo foi deixar pra depois…” e Maju no Sagui, com um violão delicado, feita para filha.

A mistura de sons é resultado da convivência com diferentes músicos, viagens por diferentes estilos e de gente como Charlie Parker, Jaco Pastorius, Herbie Hancock, Radiohead, Los Hermanos, Beatles, Pink Floyd, Gil, Geraldo Pereira, Luiz Gonzaga e por aí vai.

menodelpicchiaEsse leque de referências facilitou ou dificultou a produção do disco?

Meno – A diversidade facilitou a realização do disco e dificultou na formatação de um show coeso e coerente. Foi fácil escolher o repertório do disco. Coloquei as músicas que eu mais gostava de tocar na época e por acaso saiu samba, rock, instrumental, balada, um monte de coisa diferente. O difícil é fazer um show bacana juntando tudo isso.

Quais parcerias você trouxe para esse disco?

Meno – Nas composições não tive parceria com ninguém. Teve parceria na produção com o Juliano Polimeno, que fez algumas programações eletrônicas, e convidei o Bocato, que tocou em algumas faixas, o Tatá Aeroplano, que cantou comigo e tocou seus brinquedos mágicos em No Eyes Contact e o Zé Pi dos Druques tocou guitarra em Acaso. O resto foi bem Meno del Picchia.

E seu lado compositor. É recente ou você coleciona letras já há algum tempo?

Meno – Eu componho desde moleque, desde que aprendi os primeiros acordes. No começo, me lembro que compunha músicas tirando sarro de figuras da minha infância, amigos engraçados e acontecimentos marcantes como uma primeira namorada. As músicas do disco são mais recentes, teve música nova que entrou na última hora e teve música feita há 4 ou 5 anos. Por exemplo, Maju no Sagi, fiz pra minha filha em janeiro e gravamos em abril de 2008.

discomenoAchei a capa do disco bem interessante. Qual a história dela?

Meno – A capa foi uma ideia conjunta minha e do Ju Polimeno. Ele conheceu meu pai e os quadros dele, foi automático e instantâneo pra nós decidirmos colocar um quadro do Menotti pai na capa. Toda arte da capa está baseada no seu quadro. É uma forma de homenageá-lo. Ele morreu jovem aos 39 anos e deixou muitas esculturas e quadros que nunca foram expostos, nem publicados. Às vezes eu brinco que quero fazer um disco para cada quadro dele pra catalogar sua obra na forma de capas de disco.

O disco solo não vai atrapalhar as parcerias com os velhos amigos, mesmo porque para Meno, o caminho para um instrumentista (que toca com os outros) tornar-se artista (aquele que chama os outros) é gradual.

“O mercado está num momento muito intenso com muita gente lançando trabalhos novos, os lugares para tocar não suportam o volume de trabalhos novos o que torna uma turnê de primeiro disco um negócio arriscado. O outro lado é que muita gente boa me convida pra tocar. Só nesse ano fiz shows com Didier Lockwood e Ricardo Herz, Ricardo Teté, Cris Aflalo, Druques, banda SOS, Margareth Reali, enfim, ainda é inviável para mim, manter a vida na arte sem tocar e criar com essa turma toda”.

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Já está pensando no próximo disco?

Meno – Tenho pensado muito, quero gravar no ano que vem. As músicas estão prontas, a única coisa que não tá pronta é a conta bancária (risos). É uma brincadeira cara gravar disco, mas eu não quero parar no primeiro. Tem muita música que ainda quero mostrar.

Você vai lançar o disco em São Paulo no dia 29 de setembro, no SESC Pinheiros. O que o público pode esperar desse show?

Meno – Vou tocar o disco inteiro no formato quarteto que está com uma pegada de rock bem forte. Estamos puxando os sambas e baladas paro lado mais rock do disco. Aliás, a banda é composta por Fê Sztock na guitarra e backing vocal, Henrique Alves no baixo e Cláudio Oliveira na bateria. Vou tocar uma música nova, só eu e violão, chamada Primo Raimundo e vou tocar uma versão que fiz para House of Cards do Radiohead.

Ouvi falar dessa versão de House of Cards, mas não consegui ouvir. Ela tem algum significado especial para você?

Meno – Adoro Radiohead, foi um dos melhores shows que assisti na minha vida. House of Cards, para mim, fala de como as coisas podem mudar facilmente, ruir, melhorar, enfim, acho que a poesia da letra fala da transitoriedade de tudo na vida e de como temos que tentar manter a serenidade, mesmo que tudo entre em colapso ao nosso redor. Além disso, tem um riff de guitarra matador. A minha versão é uma versão mais intimista e simples, menos forrada de ruídos e texturas que a do Radiohead. Ao mesmo tempo, toco ela mais solta e improvisada, citando o riff deles e colocando melodias de guitarra que são criadas na hora com a banda me seguindo sem muito combinado.

Quem quiser conhecer mais do som de Meno é só acessar:  www.myspace.com/menodelpicchia ou aparecer no Sesc Pinheiro, no dia 29 de setembro para o show de lançamento do disco.

Papo rápido com as meninas do Choro das Três

Elisa, Corina e Lia
Elisa, Corina e Lia

[Por Natasha Ramos]

Com apenas 21, 18 e 16 anos, respectivamente, as irmãs Corina (flauta), Lia (violão de sete cordas) e Elisa (bandolim), ao lado do pai Eduardo (pandeiro), formam o conjunto de música instrumental Choro das Três.

Vindas de Porto Feliz (interior de São Paulo), as meninas chamam a atenção do público por onde passam e vêm difundindo sua música de raiz, com ênfase no choro da velha guarda, há cinco anos.

O Choro das Três leva na bagagem o álbum de estreia Meu Brasil Brasileiro (lançado em 2008, pela Som Livre), que mescla faixas autorais com músicas de grandes nomes do gênero, como Ernesto Nazareth (“Brejeiro”), Zequinha de Abreu (“Tico Tico no Fubá”), Pixinguinha  (“Carinhoso”) e Ary Barroso (“Aquarela do Brasil”).

Em entrevista ao Palco Alternativo, as meninas contaram de onde surgiu a paixão pela música, como se deu a escolha do choro e quais os artistas que elas indicam. Confira!

Como é a cena musical de Porto Feliz, em relação ao chorinho?

Corina: É inexistente. Somos o único grupo de choro da cidade. Em Porto Feliz, tinha um coral —a partir desse coral que eu comecei a tocar—, ministrado por um professor voluntário, Marco Leite, na minha escola, e tem a Escola Municipal de Música, que foi onde começamos a estudar música. Mas dizer que lá tem shows, teatro, não tem. É uma cidade muito pequena.

De onde surgiu o gosto pela música?

Corina: Meu pai é apaixonado por música, passa o dia inteiro com o rádio ligado. A gente sempre teve muita música à disposição, CDs de todos os tipos, desde jazz à rock, bossa nova, música clássica… Ele sempre gostou muito e acabou passando essa paixão pela música para a gente.

Por que vocês escolheram o chorinho?

Corina: Na verdade, a gente não sabe muito bem por quê. Eu era pequena, tinha 8 anos, e no meio desse monte de CDs, meu pai tinha só um de choro, do Altamiro Carrilho. Eu achei esse disco e só queria ouvi-lo. Fiquei encantada. Aí, a gente começou a vir para São Paulo, nas rodas de choro. E eu comecei a tocar flauta por causa desse disco do Altamiro Carrilho. Foi um gênero que me encantou.

A gente sempre diz como é engraçado o fato de uma criança de 8 anos ter gostado de um gênero que não é comum. Costumamos dizer que é só você dar oportunidade para as pessoas conhecerem, ouvirem, que sempre vai ter gente interessada. Ninguém pode gostar do que não conhece.

Como as coisas começaram a acontecer para vocês, quando começaram a fazer mais shows?

Corina: Há uns quatro ou cinco anos, começamos a receber convite de TV de gente querendo assistir aos nossos shows, de gente querendo contratar… Em 2008, a gente lançou o CD pela Som Livre e, graças a Deus, estamos fazendo bastante apresentações.

Em outra ocasião, a Elisa havia dito que fazer música é fácil, o difícil é dar um nome às composições. É verdade isso? Vocês compõem muito?

Elisa: Mais ou menos. Se você tem um tema e faz a música com esse tema, é fácil escolher um nome. É mais difícil quando você cria alguma música sem um motivo exato. Aí, às vezes, eu não sei qual nome dar.

Corina: Às vezes não. Tem umas dez músicas sem nome lá em casa.

Elisa: Eu fico com medo de colocar um nome e depois me arrepender.

Vocês começaram com outro nome, Balaio de Gato. O que as levou a mudá-lo?

Corina: Descobrimos que já havia uma banda de forró do Nordeste com esse nome registrado.

O que na opinião de vocês destaca o choro dos demais estilos musicais?

Corina: O choro é uma música difícil tecnicamente. É a música clássica brasileira, mas é mais livre, espontânea e tem elementos da música popular.

Dessa nova leva de artistas do chorinho quais vocês indicam?

Corina: O Yamandu Costa, Luciana Rabelo, Zé barbeiro, tem vários.

Conheça Pedro Bromfman, o jazzman por trás das trilhas de Tropa de Elite e Mataram a irmã Dorothy

(por Andréia Martins) – Pedro Bromfman é um carioca que adora música e resolveu correr atrás da carreira nos EUA. Para quem não se lembra de tê-lo visto cantar ou algo parecido, o motivo é simples: o músico trabalha com trilha sonora, além de cultivar uma antiga paixão: o jazz.

O mais conhecido trabalho deste trilheiro no Brasil talvez seja a trilha sonora do filme Tropa de Elite, que além de jargões – ‘fanfarrão’ e ‘pede pra sair’- recuperou um antigo hit do grupo Tihuana, que leva o nome do filme, entre novas composições.

pedro“Tive a sorte de estar envolvido desde a fase do roteiro, o que me possibilitou conhecer intimamente os personagens e entender como a musica deveria contribuir emocionalmente para o filme”, diz ele do trabalho em Tropa… . Um compositor de trilhas trabalha de duas formas: seja na escolha de músicas já gravadas para compor uma trilha ou compondo as músicas.

“Ajudamos a ‘construir’ o mundo emocional através da criação de temas musicais”, diz ele. Entre uma viagem e outra – ele reside em Los Angeles e passa a maior parte do tempo por lá – Pedro bateu um papo com a gente e falou do trabalho, do mercado – seu último trabalho a passar por aqui foi a trilha do documentário Mataram a Irmã Dorohty – de “trilheiros”, formação e novos projetos.

Gostaria que você falasse sobre o trabalho no filme Tropa de Elite.
Pedro Bromfman – Compus e produzi em torno de 30 faixas incidentais que dividem com as canções escolhidas os momentos musicais do filme. Também fui responsável pela produção e regravação de algumas canções como Rap das Armas e a faixa Nossa Bandeira, ambas gravadas com os MCs Leonardo e Júnior e com a bateria da Escola de Samba da Rocinha. Toquei diversos instrumentos durante as gravações da trilha, fiz a programação sonora e criei sons e contei com a participação de grandes músicos como Robertinho Silva, Ney Conceicao e Cassio Duarte.

Haverá uma edição especial da trilha nos EUA, parece que ela vem com algumas novidades, certo?
PB – O filme que será lançado nos EUA será exatamente igual ao que saiu no Brasil. A diferença é que o CD da trilha que lançamos aqui fora contará com parte da trilha incidental, o que não saiu no Brasil e alguns diálogos mixados entre as músicas.

Como é esse mercado – o de trilhas – aí nos Estados Unidos, para os brasileiros?
PB – O mercado de trilhas em Hollywood é completamente globalizado. Compositores do mundo inteiro que querem trabalhar com música para cinema tentam a sorte por aqui. Esse é sem dúvida um mercado extremamente competitivo porem, apesar de bastante saturado, existe trabalho para compositores nas mais diversas áreas: videogames, web sites, shows de TV, etc… Eu trabalhei durante anos compondo musica para trailers e comerciais antes de começar a me dedicar exclusivamente ao cinema.

Você saberia dizer quais músicos brasileiros se destacam por aí, nessa área?
PB – Alguns estão construindo carreiras bem sucedidas por aqui como, por exemplo, o Antonio Pinto, o Heitor Pereira e o Marcelo Zarvos.

Você começou como guitarrista de Jazz no Rio, certo? Quando você decidiu se tornar produtor de trilhas e tentar a carreira nos EUA?
PB – Me mudei para Los Angeles em dezembro de 2001. Estava frustrado com o cenário da música instrumental no Brasil e queria passar um tempo por aqui tocando e aprendendo mais sobre produção. Não planejei entrar para o mercado de trilhas, apesar de ser apaixonado por cinema. Quando cheguei a LA conheci muita gente do meio e quando percebi, estava compondo trilhas para curtas e documentários. Resolvi então me especializar em composição de trilhas com um curso de pós na UCLA.

Formam-se melhor os músicos nos EUA?
PB – Fiz faculdade em Boston, na Berklee college of Music. Foi uma experiência extraordinária. A infra-estrutura de uma faculdade de música como a Berklee, pelo menos em 1994 quando cheguei a Boston, era inimaginável no Brasil. A possibilidade de tocar, gravar e estudar com excelentes músicos do mundo inteiro foi maravilhosa. Acho que no Brasil temos músicos brilhantes e extremamente talentosos, porém, muitas vezes a falta de oportunidades acaba criando insatisfação e uma frustração geral que dificulta a constante busca da superação.

Fale um pouco sobre o trabalho no filme They Killed sister Dorothy. Que tipo de músicas você preparou para essa história?
PB – They Killed Sister Dorothy é uma produção inteiramente americana, porém sobre um caso que ocorreu no Brasil, a morte da missionária norte-americana Dorothy Stang, no Pará em 2005. O filme é narrado pelo ator Martin Sheen, dirigido pelo talentoso Daniel Junge e produzido por Nigel Noble, ganhador de um Oscar de melhor documentário nos anos 80. Compus em torno de uma hora de música para o filme, que conta exclusivamente com músicas minhas. O filme foi premiado no festival de South by Southwest com o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio Popular.

Você continua se apresentando ao vivo, está preparando algum trabalho novo de inéditas?
PB – Não tenho tocado ao vivo. Tenho vontade de montar um grupo no futuro e voltar a tocar jazz, uma das minhas grandes paixões. Porém, no momento estou muito feliz em poder trabalhar compondo trilhas. Sempre fui um músico muito eclético, escutava e tocava de tudo desde a infância, e essa diversidade esta presente todos os dias em meu trabalho. Devo fazer mais um filme com o José Padilha, diretor do Tropa, dessa vez um documentário sobre os índios Yanomamis. Além disso existe a possibilidade de eu compor a trilha para um novo filme brasileiro e outro americano, ainda estamos em fase de negociação.

Se tivesse que escolher, qual seria o seu Top 5 de filmes que tem um casamento, digamos perfeito, entre trama e trilha, e por que?
PB – Sou um grande fã do Ennio Morricone e hoje tenho o orgulho de dizer que temos o mesmo agente em Hollywood, surreal, não?!?! Suas trilhas para The Good, The Bad and The Ugly, Cinema Paradiso e A Missão são perfeitas. Também adoro o trabalho do John Barry, Out of África e Somewhere in Time são trilhas maravilhosas. Como comentei antes, o compositor de trilhas é responsável por encontrar o tom do filme e compor temas que nos façam sentir na pele o que vemos na tela. Nos exemplos citados acima, esses gênios não só o fizeram, como também criaram melodias extraordinárias que funcionam maravilhosamente bem, mesmo separadas do filme.

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