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Abs e nos vemos lá.

EQUIPE PALCO ALTERNATIVO

Jonathan Richman, o trovador moderno

Jonathan Richman durante apresentação no SESC Pompeia. Foto: Natasha Ramos

[Natasha Ramos]  Jonathan Richman, cantor e guitarrista norte-americano, fundador da extinta Modern Lovers, veio pela primeira vez à América do Sul para tocar para um público de moderninhos na noite de quinta-feira (15/4), na choperia do SESC Pompeia.

O músico underground, que influenciou nomes como o ex-líder do Velvet Underground Lou Reed, Brian Eno, Joey Ramone, David Bowie, Elvis Costello, Clash e Sex Pistols, acompanhado de seu violão e seu único companheiro de banda, o baterista Tommy Larkins, reuniu admiradores moderninhos que, ao final da apresentação, dançavam sem parar.

Inevitável comentar o gingado e carisma de Richman que cativou a todos os presentes. No começo ele arriscou algumas palavras em português, mas logo depois, falando em inglês, disse que não sabia falar muito bem a língua tupiniquim, apesar de falar outras como espanhol, itaniano, francês…

Destaque para as músicas “Pablo Picasso”, “Old World”, a maravilhosa “Because her beauty is raw and wild” e a animada “I Was Dancing in the Lesbian Bar”, com direito a dancinhas e “Legals” de Richman e palmas da galera que acompanhava a batida da música.

Perto do final da apresentação, os rapazes com suas camisas xadrez e bigodes dançavam animadamente bem na frente do palco. Jonathan, então, termina a musica, faz menção de sair, mas o público clama por pelo menos mais uma música. O baterista já havia saído, e Jonathan se vê tendo de ir, mas demonstrando vontade de permanecer e atender ao pedido de seus fãs. É então que ele, sem violão, sem bateria, nem cowbells, nem instrumento algum, cantarola uma música em italiano como um trovador moderno e se despede elegantemente com um “Arrivederci!”.

Histórico

Em 1970, Jonathan formou a The Modern Lovers, uma banda que marcou a história do gênero nos anos 70 sob a influência do Velvet Underground, e da qual saíram os membros do Talking Heads e The Cars.

Em 1979, Richman começou carreira solo e embarcou em estilos sonoros mais próximos do folk country a partir de uma ótica new wave. Com mais de 20 CDs lançados, ele nunca parou de compor e de fazer apresentações em todo o mundo.

Ao longo da carreira Richman foi além da formação de banda e concentrou-se nas letras, além de reduzir a instrumentação de suas canções para tocar com o acompanhamento macio de uma bateria. Sua obsessão pela simplicidade acústica o torna um dos artistas mais raros do universo musical.

Em 1994, lançou um álbum totalmente em castelhano: “Te vas a emocionar”, repleto de canções mexicanas, espanholas e equatorianas, entre outras, que o influenciaram de maneira marcante. Ele também compôs em italiano e francês.

Amigo e colaborador de Lou Reed, adorado pelos Ramones e idolatrado pelos irmãos e cineastas Farrelly, que o incluíram no filme “Something About Mary”, Jonathan deixou o palco, deixando saudade em seus admiradores.

Jonathan Richman e o baterista Tommy Larkins. Foto: Natasha RamosFoto: Natasha Ramos

Foto: Natasha Ramos

Jonathan tocando cowbell. Foto: Natasha Ramos

Música para se ver: Mark Seliger, de fotógrafo a frontman country

[por Andréia Martins]

red hotEm 1992, os meninos do Red Hot Chili Peppers foram capa da revista Rolling Stone em trajes… ou melhor, sem traje algum. Irreverentes, foram fotografados nus, no auge do sucesso do disco Blood Sugar Sex Magik. O autor da foto foi o texano Mark Seliger, mais um fotógrafo que tem seu nome na história do rock e que, de tanto registrar figuras e momentos marcantes da música, acabou rendendo-se a ela. Mas vamos ao início, onde tudo começou.

Seliger pegou gosto pelas imagens ainda adolescente, em Houston. Na faculdade, começou a trabalhar como assistente de outros fotógrafos. Cansado da mesmice do trabalho, decidiu encarar Nova York, a cidade onde, certamente, muito mais estaria acontecendo.  “Decidi que, se queria mesmo saber como as pessoas trabalhavam e entender o que era o mundo da fotografia editorial, tinha de me mudar para Nova York”, diz.

A sorte parece ter decidido acompanhá-lo. Ao chegar em Manhattan, logo arrumou um emprego de assistente de fotografia, no qual ficou por dois anos. Depois, trabalhou na revista Manhattan Inc., onde conseguiu visibilidade para um voo maior: a revista Rolling Stone.

Foram mais de 90 capas em 10 anos na revista, ícone da cultura pop dos anos 90. Tudo e todos que foram notícia no mundo das artes passaram por ela, e grande parte disso foi registrada pelas lentes de Seliger.

De lá pra cá, já são 23 anos de carreira e uma extensa lista de artistas fotografados como Metallica, White Stripes, Paul McCartney, Chuck Berry, Ray Charles, Diana Krall, Snoop Dog, Gilberto Gil, Ozzy Osbourne, Bono, Kurt Cobain, Courtney Love, B.B. King, Bob Dylan, Eric Clapton, Bruce Springsteen, Sheryl Crown, Eddie Vedder, Tom Waits, entre tantos outros.

tom waits

O "balé" de Tom Waits

Com um vasto material, contando um pouco da história de gêneros como o hip hop, o rock, blues e country, Seliger reuniu todas as suas fotos no livro, que ele veio lançar no Brasil em agosto desse ano: Mark Seliger – The Music Book. “O livro é uma boa biblioteca do meu trabalho. Mergulhei nos arquivos de anos de música que retratei e selecionei aquelas fotos que tinham um tom histórico e icônico, tendo como referência todas as sessões que fiz”, afirma. “O processo me trouxe grandes memórias e serviu como uma redescoberta da fotografia para mim”, comenta ele sobre o livro.

Entre suas fotos históricas estão a de Johnny Cash, com o violão nas costas, e o close de Kurt Cobain, tirado poucas semanas antes da morte do líder do Nirvana, em abril de 1994. “É um peso que todo mundo carrega nas costas. Como alguém podia estar tão triste?”, diz ele sobre o momento pelo qual passava Cobain.

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Cash, clicado em 1992

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Retrato de Kurt Cobain

“Tento conceitualizar as fotos que vou fazer. Eu escolho um estilista, um cabelereiro e maquiador, encontro um local e pesquiso sobre o artista. Tenho muitas ideias. Umas simples outras bem complicadas”, diz o fotógrafo sobre como pensa e executa seus trabalhos.

“Eu tento conhecer um pouco sobre a pessoa antes de ir à sessão de fotos. Eu também tento observar o que ela faz quando está parada na minha frente. Quando essas pessoas entram com amigos no estúdio e ainda estão conversando, eu posso pegar um gesto, um movimento ou algo qe eles estejam fazendo que me levam à fotografia”.

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A banda Metallica

Rusty Truck: Seliger assume o microfone

Hoje, Seliger assina fotos para as revistas Vanity Fair, GQ e Vogue italiana. Aos 50 anos, ainda vive e trabalha em Manhattan, no bairro do West Village e, há poucos anos, resolveu explorar um outro lado seu: o de cantor e compositor.

banda rusty

Seliger, de azul, com sua banda

Seliger sempre tocou violão e gostou de cantar. Lembra que no seu bar mitzvah, ganhou uma guitarra e desde então passou a tocar, começando com as músicas e Cat Stevens. Mais velho, inspirações não faltaram para que o fotógrafo decidisse entrar na música, saindo de trás da câmera, para ser o frontman da banda Rusty Truck.

Segundo ele, a música como atividade profissional aconteceu meio sem querer. A brincadeira deu certo. Começou a ser chamado para programas, turnês, festivais, e a banda já tem dois discos lançados: Broken Promises, de 2003, que ganhou elogios dos críticos do seu antigo local de trabalho, a Rolling Stone, e Luck’s Changing Lanes, de 2008.

O CD tem colaborações de nomes como Willie Nelson, Lenny Kravitz, Sheryl Crow e Jakob Dylan. As canções são todas de autoria de Seliger, a maioria inspirada em sua infância e adolescência, com uma pegada mais country do que rock.

Com experiência na produção de videoclipes – ele já produziu vídeos dos amigos Lenny Kravitz, para quem também fotografou um álbum exclusivo, Elvis Costello, entre outros – ele aproveitou para fazer alguns vídeos da sua própria banda. Um dos destaques é o vídeo da música So Long, Farewell, que reúne vídeos caseiros de Seliger ainda criança.

Mesmo depois de tanto tempo de carreira e uma nova empreitada pela frente, Seliger ainda diz ter uma lista de fotos para fazer, como Prince, Madonna e Michael Jackson, pessoas que ele lamenta ainda não ter clicado. E é bom ele correr contra o tempo, pois as oportunidades podem acabar quando menos se espera. Que o diga o rei do pop…

Música para se ver: Bob Gruen, o fotógrafo R’n’R

[por Natasha Ramos]

Com mais de quatro décadas de carreira, são dele, o fotógrafo rock’n’roll, imagens clássicas de ícones da música, como John Lennon, Sid Vicious e Rolling Stones

Bob Gruen recebe o prêmio de “Imagens Clássicas”por seus anos fotografando momentos históricos do rock’n’roll, durante cerimônia de premiação em Londres da revista Mojo, em 2004

Bob Gruen recebe o prêmio de “Imagens Clássicas”por seus anos fotografando momentos históricos do rock’n’roll, durante cerimônia de premiação em Londres da revista Mojo, em 2004

Não é preciso dizer que Bob é um grande fã de música, em especial de rock.  E, como todo bom fã de música, sua paixão começou cedo. Mas antes mesmo de ele pensar em assistir a seu primeiro show, o novaiorquino teve contato com algoq ue se tornaria sua profissão e o uniria definitivamente a sua grande paixão.

“Fotografia era o hobby de minha mãe. Quando eu era bem pequeno ela me levou para sua câmara escura, onde revelava suas fotos. E quando eu tinha oito anos, meus pais me deram um presente, a minha primeira câmera. E eu venho tirando fotos desde então. Quando estava no colegial eu fiquei amigo de alguns artistas e, depois desse tempo na escola, comecei a morar com uma banda de rock e fiz as fotos para eles enviarem a uma gravadora. A gravadora gostou do meu trabalho e fui fazendo uma sessão atrás da outra”, disse Bob durante sua passagem ao Brasil, em 2007, para a abertura de sua exposição “Rockers”.

Bob e Supla

Bob e Supla

Considerado o fotógrafo oficial da família Lennon entre 1970 e 1980, a ideia inicial da exposição, que surgiu do encontro de Bob e Supla na Big Apple (NY), era abordar a vida de Lennon, já que o fotógrafo havia acabado de lançar o livro John Lennon The New York Years. Porém, ao ver a gama de imagens registradas ao longo dos anos sobre diversos músicos, esta proposta foi ampliada e o foco da exposição caiu sobre a obra de Bob Gruen.

“Conheci John e Yoko em 1971, pouco depois de eles terem se mudado para Nova York. Éramos amigos e vizinhos e, por nove anos, fui seu fotógrafo pessoal quando eles precisavam de fotos para publicidade ou para a capa de algum álbum ou para sua família”, conta Bob no livro homônimo à exposição.

Bob não se considera um fotojornalista, já que não se limita a registrar os fatos, mas sempre gostou de dividir seus sentimentos durante uma sessão de fotografia. “Tento, com as minhas fotos, mostrar um pouco da paixão, um pouco do meu ‘feeling’ por trás do que aconteceu”, conta.

Na hora certa, no lugar certo

Se Cartier-Bresson é o fotógrafo do “instante decisivo”, pode-se dizer que Bob Gruen é o fotógrafo da “hora certa, no lugar certo”. Vivendo no estilo do rock, Gruen ficou amigo de muitos músicos que encontrou e pôde fotografá-los em ambientes casuais. Muitas das bandas com as quais trabalhou não eram famosas quando as conheceu. Assim, ele pôde registrar seus momentos iniciais.

“A primeira banda que vi tocar em um teatro foram os Rolling Stones, em 1964, na Academia de Música de Nova York. Imediatamente me tornei fã eterno. Pelo estilo, atitude e musicalidade. Eles são o grupo que todo mundo venera”, conta.

Durante suas mais de quatro décadas de trabalho, Bob-enciclopédia-do-rock-Gruen acompanhou desde o nascimento do punk, passando pelo auge do Led Zeppelin, até os últimos anos de Elvis Presley.

Quando a objetiva de Gruen focou o Led Zeppelin pela primeira vez, a banda já tocava para enormes platéias e já tinha seu próprio avião, 1973

Quando a objetiva de Gruen focou o Led Zeppelin pela primeira vez, a banda já tocava para enormes platéias e já tinha seu próprio avião, 1973

Vários artistas já posaram ou foram flagrados por suas lentes fotográficas

Rolling Stones, Nova York, 1972

Rolling Stones, Nova York, 1972

Sex Pistols 'sorrindo', 1977

Sex Pistols 'sorrindo', 1977

Sid Vicious, em San Antônio (EUA), 1978

Sid Vicious, em San Antônio (EUA), 1978

John Lennon, Nova York, 1974

John Lennon, Nova York, 1974

John Lennon e Yoko Ono, NYC, 1972

John Lennon e Yoko Ono, NYC, 1972

Bob Dylan, Nova York, 1974

Bob Dylan, Nova York, 1974

The Clash, Boston, 1979

The Clash, Boston, 1979

“Vestidos para matar”, Kiss, NYC, 1974

“Vestidos para matar”, Kiss, NYC, 1974

David Bowie - Luvas de Boxe, 1974

David Bowie - Luvas de Boxe, 1974

Mas o trabalho de Bob, hoje com 64 anos, não se limita ao passado. Por onde passa, sua câmera está sempre a postos para captar novidades do mundo da música. Um bom canal para conferir e acompanhar seu trabalho é seu site oficial: www.bobgruen.com .

Fotos: Rockers, Bob Gruen

Música para se ver: Annie Leibovitz

 

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Annie Leibovitz: a primeira dama da fotografia do rock e das celebridades

[por Carol Cunha]

John_Lennon_YokoJohn Lennon estava nu e agarrado a uma Yoko Ono vestida de preto. O maior astro dos Beatles naquela época posava de olhos fechados e parecia vulnerável. Lennon olhou para a Polaroid e comentou: “Esse é o nosso relacionamento”. Horas depois, ele seria baleado e morto em frente ao edifício Dakota, em Nova York.

Clicada em 1980, a última foto de John Lennon foi imortalizada em uma capa histórica da revista Rolling Stones, esgotada nas bancas em poucos dias. Em 2005, a Sociedade Americana dos Editores de Revistas (ASME) considerou a capa a mais importante dos últimos 40 anos. Por trás das lentes, estava a fotógrafa americana Annie Leibovitz.

Nascida em 1949, Annie começou sua carreira profissional aos 20 anos na Rolling Stones, na época, uma publicação recém-lançada em São Francisco que cobria a cultura do rock and roll. Morando no epicentro da contracultura hippie, Annie estava no lugar certo, na hora certa.

Estudante do San Francisco Art Institute, ela tinha um pequeno portfólio de fotografias que impressionou os editores da revista: um retrato do poeta beatnik Allan Ginsberg, tirado numa manifestação contra a guerra, e fotos de Israel, fruto da temporada que viveu num kibutz. Sua habilidade com a câmera fez com que ela conquistasse rapidamente o seu espaço. Em 1973, com apenas 23 anos, já era chefe de fotografia da publicação.

Like a Rolling Stone

Annie foi uma das primeiras mulheres a exercer o fotojornalismo e trabalhou na Rolling Stone durante dez anos. Ela imprimiu seu trabalho em 142 capas, ajudando a moldar a identidade da revista e o imaginário de uma época. Neste período fotografou praticamente todos os artistas em ascensão como Bob Dylan, The Clash, Diana Ross e Bob Marley, apenas para citar alguns.

patticoverAnnie apresenta muitos estilos ao longo de sua carreira, mas o que nunca mudou foi sua capacidade de testar novas ideias. Em alguns cliques, buscava se conectar com a essência da personalidade do artista. Quando disseram que Patti Smith seria matéria de capa em 1978, Annie não hesitou em jogar fogo num barril e posicionar a cantora em frente a uma grande labareda.  Tudo para transmitir a energia e força que ela via na cantora. Ideias simples também valiam, como pintar de azul o rosto dos Blues Brothers e fotografar Alice Cooper com uma cobra enrolada no pescoço. Em outros momentos, seus retratos refletiam um humor afiado e personagens em situações surreais.

Uma de suas experiências mais marcantes foi em 1975, quando foi para a estrada com os Rolling Stones para documentar a turnê de seis meses da banda de rock mais popular daquele tempo. A lendária viagem testou os limites de Annie com a rotina de drogas e baladas, mas ela também produziu fotos reveladoras e intimistas de Keith Richards e Mick Jagger dançando e cantando no palco, afinando instrumentos ou chapados nos corredores dos hotéis.

"Parecia que, para mim, o show era o lugar menos interessante de se fotografar um músico. Eu estava interessada em como as coisas foram feitas. Eu gostava dos ensaios, quartos de hotéis, qualquer lugar menos o palco”. (Annie)

"Parecia que, para mim, o show era o lugar menos interessante de se fotografar um músico. Eu estava interessada em como as coisas foram feitas. Eu gostava dos ensaios, quartos de hotéis, qualquer lugar menos o palco”. (Annie)

A turnê rendeu uma amizade com o grupo para a vida inteira e um vício: a cocaína, que ela só conseguiu largar após se internar em uma clínica. Em uma entrevista para a Vanity Fair, ela declarou que demorou cinco anos para apagar as marcas daquela turnê. “As pessoas sempre falam sobre a alma do fotografado, mas o fotógrafo tem uma alma, também. E eu quase a perdi”.

Em 1983, Leibo aceitou trabalhar para a revista Vanity Fair e começou a fotografar celebridades e editoriais de moda. Também fez fotos para a Vogue e campanhas publicitárias. Com total liberdade criativa, foi responsável pela idealização de cenários fantásticos e caros, mas que rendiam cliques memoráveis. São famosos os editorais com a atriz Kirsten Dunst no palácio de Versailles encarnando o papel de Maria Antonieta, Whoopi Goldberg numa banheira de leite ou Betty Mindlin mergulhada em rosas vermelhas. A editora de moda da Vogue, Anna Wintour declarou em uma entrevista que o investimento valia a pena, já que “ela te dá uma imagem como ninguém mais pode conseguir”.

As raízes da música americana

Em 2003, Annie Leibovitz lançou o livro Annie Leibovitz: American Music, um projeto pessoal que pretendia refletir a riqueza sonora norte-americana. No livro, ela conta que seguiu o desejo de retornar ao seu tema original com um olhar mais maduro. Durante 1999 e 2001, percorreu lugares sagrados da música como o Delta do Mississipi, Texas e Nova Orleans, para documentar ícones do blues, jazz, country, folk, rap e o rock. As fotografias, com luz natural, valorizam e capturam a simplicidade dos músicos em seu cotidiano e comunidades, dentro de suas casas e ranchos, cantando em igrejas e clubes de jazz, gravando em estúdios ou dirigindo carros.

Estão lá: Johnny Cash and June Carter,Tom Waits, Dj Shadow, B.B. King, Beck, Brian Wilson, Iggy Pop, John Frusciante, Johnnie Billington, Lou Reed, Laurie Anderson, Michael Stipe, Norah Jones, Patti Smith, Ryan Adams, The Roots, The White Stripes e Willie Nelson.

"Eu estava dirigindo no Delta e sabia que todo ano em seu aniversário, B.B. King voltava a Indianola e tocava lá. Estávamos perto de Indianola e ele estava tocando no Clube Ebony. O clube era tão pequeno, eu estava praticamente sentada em seu colo. Foi incrível sentar neste pequeno clube e ver este homem tocar”.

"Eu estava dirigindo no Delta e sabia que todo ano em seu aniversário, B.B. King voltava a Indianola e tocava lá. Estávamos perto de Indianola e ele estava tocando no Clube Ebony. O clube era tão pequeno, eu estava praticamente sentada em seu colo. Foi incrível sentar neste pequeno clube e ver este homem tocar”.

“Esta banda é um duo. Vê-los tocar uma música juntos é como assistir a uma dança ou um romance. Eu peguei o alvo de um material que sobrou da Vogue, eu estava sentada no estúdio, tentando pensar, eu não sabia como fotografar os White Stripes".

“Esta banda é um duo. Vê-los tocar uma música juntos é como assistir a uma dança ou um romance. Eu peguei o alvo de um material que sobrou da Vogue, eu estava sentada no estúdio, tentando pensar, eu não sabia como fotografar os White Stripes".

 

Iggy Pop, Miami, Florida, 2000 – “Ele apareceu na porta sem camisa e e disse que não queria ser fotografado sem blusa, mas ele nunca a colocava. O seu corpo é um mapa do caminho de uma viagem difícil”.

Iggy Pop, Miami, Florida, 2000 – “Ele apareceu na porta sem camisa e e disse que não queria ser fotografado sem blusa, mas ele nunca a colocava. O seu corpo é um mapa do caminho de uma viagem difícil”.

O foco das lentes de Annie tem um segredo. Ela não ficou famosa por clicar as maiores celebridades americanas, pelo equipamento que usa ou pelas produções com verba astronômica,e sim pelo olhar clínico e sincero pelas pessoas. Sua vasta e polêmica produção fotográfica já foi exposta em dezenas de galerias e museus de arte.

Hoje, com 40 anos de carreira, Annie Leibovitz é um dos maiores nomes da fotografia mundial, uma cronista visual de seu tempo, com lugar garantido na história da cultura pop.

Para quem quiser saber mais sobre Annie, além do livro citado vale a pena assistir ao documentário: Annie Leibovitz -A vida através das lentes (Annie Leibovitz: Life Through a Lens, 2006).

Sérgio Sampaio mais popular do que maldito; Zeca Baleiro prepara novo relançamento

Sampaio

(por Andréia Martins)

O altar da cidade de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, não é habitado apenas pelo trono do rei Roberto Carlos. Você pode até não conhecê-lo, mas há ali outro importante nome da música popular brasileira, que reina como o mais maldito entre os malditos da MPB – galeria que reúne Melodia, Macalé, Walter Franco, Barnabé, Itamar, entre outros: Sérgio Sampaio.

Este ano, completaram-se 15 anos da morte do cantor e compositor capixaba, que, curiosamente, tinha um sonho e morreu sem realizá-lo: ter uma de suas músicas gravadas pelo outro rei e seu conterrâneo, Roberto Carlos.

Para não deixar a data passar em branco, Jards Macalé, Luiz Melodia, Márcia Castro e Zeca Baleiro fizeram um show no SESC Pompéia, em São Paulo, no início de julho. Juntos, cantaram para uma plateia que reuniu muita gente que tinha menos de 10 anos quando o cantor faleceu, em 15 de maio de 1994.

Ali uma coisa ficou clara: apesar da curta carreira e de ter emplacado um único hit, Eu quero é botar meu bloco na rua, o interesse de jovens e novas bandas pela obra de Sérgio só cresce, incentivados pelos sites e blogs dedicados ao cantor, bandas reproduzindo seu repertório ou graças a fãs como Zeca Baleiro, que lançou pelo seu selo, o Saravá Discos, em 2006, o disco póstumo de Sérgio, Cruel, e já tem outro projeto na manga: relançar o último disco do capixaba, Sinceramente, de 1982.

“Já está pronto e até o próximo mês (outubro) estaremos lançando pelo meu selo. Falta só fazer uns acertos com a família e a editora do Sampaio”, adianta Baleiro ao Palco Alternativo.

Ligados por linhas tortas

Zeca conheceu Sérgio em 1989, durante um show no Rio de Janeiro. “A gente tomou umas cervejas e, na época, eu e mais quatro amigos estávamos editando uma revista cultural lá no Maranhão que se chamaria ‘Umdegrau’”, contou ele na apresentação do Sesc.

“A gente queria um entrevistado, um nome nacional. Fiz o convite e ele topou. Mandamos as perguntas e ele levou tanto tempo para responder que, quando ele mandou as respostas, a revista já tinha saído”.

Além das respostas, no fim da fita com a entrevista Sérgio gravou uma música, uma amostra do que ele estava fazendo. A canção era Maiúsculo, última faixa do disco Cruel, relançado anos depois pelo mesmo Baleiro. Era o destino escrevendo por linhas tortas.

Novas bandas levam o repertório sampaiófilo adiante

Uma banda assumidamente influenciada por Sampaio é a Cérebro Eletrônico. Tatá Aeroplano, vocalista da banda, já revelou em entrevistas que é sua forma de compor e cantar é intensamente influenciada por Sampaio.

No disco Pareço Moderno, o grupo gravou uma música em homenagem ao capixaba, Sérgio Sampaio volta, e na faixa que dá nome ao disco, fez nova homenagem a ele no verso: “Sérgio Sampaio vai chegar pra lhe dizer que eu pareço moderno”.

Outras bandas seguem espalhando o repertório de Sérgio como a Boato, Tangos e Outras Delícias, enquanto João Moraes, documentarista e primo do cantor, promove algumas jornadas sampaiófilas pelo Espírito Santo.

” Trata-se de uma galera que nunca viu Sérgio vivo, que nunca o tinha ouvido antes, mas já forma várias comunidades, páginas no MySpace. Para eles, é uma descoberta”, disse ele em entrevista recente ao Estado de S.Paulo.

“Acho que há uma curiosidade grande dos jovens de hoje a respeito da música do Sérgio, em parte provocada pela sua biografia peculiar, sua trajetória errática, seu mito de maldição. Para além disso tudo, o cara foi um grande músico e poeta, e gravações recentes de suas canções têm trazido seu nome à tona outra vez”, diz Baleiro ao Palco Alternativo.

Para se ter ideia de como Sérgio anda em alta, passados 15 anos de sua morte, ele virou até tema de livro. Além da biografia “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua”, de Rodrigo Moreira, de 2008, a poética de suas letras e textos foi base para o livro “Eu Sou Aquele que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e Vida de Sérgio Sampaio”, publicado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

parceria de Raul Seixas e Sérgio Sampaio

Revirando o baú

Sem contar compactos e participações nos discos de outros artistas, Sérgio Sampaio lançou 3 discos solo (LPs), mas sucesso mesmo obteve apenas com o primeiro, Quero Botar meu Bloco na Rua, de 1973.

Parceiro de Raul Seixas no disco A Sociedade da Grã-Ordem Cavernista Apresenta: Sessão das Dez (1971), foi Raul quem abriu as portas para Sérgio na Phillips, gravadora pela qual lançou o disco depois de, no ano anterior,  vencer o Festival Internacional da Canção com Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua.

“Fiz a canção num momento de angústia bastante grande, eu sozinho comigo cantando, e sentia que ela tinha um poder. Depois, mostrei para Raul e ele mesmo disse: ‘Pomba, é isso aí, dá pé, esse negócio aí é legal’”.

Regravado por nomes como Erasmo Carlos, Maria Bethânia, Luiz Melodia, Sérgio Natureza, Zeca Baleiro, Chico César, Lenine e João Bosco, Sérgio não virou nome de rua, de avenida, de escola, de praça, mas sua música está por aí, na rua, nas praças de Cachoeiro, chegando aos dispostos a ouvir.

Como o próprio cantava: “Um livro de poesia na gaveta, não adianta nada. Lugar de poesia é na calçada”… O mesmo serve para a música.

Para baixar o repertório sampaiófilo, clique aqui.

Hélio Flanders, do Vanguart, e Igor Filus, do Charme Chulo, falam sobre Bob Dylan

[Natasha Ramos]

Capa do disco "Together Through Life"

Capa do disco "Together Through Life"

Bob Dylan lança  nesta terça  (28) seu 33º disco de estúdio, Together Through Life (Columbia Records). Com um título no mínimo romântico combinado à foto da capa de dois jovens se pegando no banco de um carro, o álbum revisita a atmosfera do verão de 1959 e a sonoridade daquela época.

Com meio século de existência artística, Bob Dylan deixou sua marca no universo musical e na cultura pop. Sem dúvida, a lenda do folk se tornou referência para muitos músicos contemporâneos que resolveram enveredar pelo mesmo gênero do músico.

É o caso de Hélio Flanders, do Vanguart, que em entrevista ao Palco Alternativo revelou ter conhecido Dylan aos 14 anos.

“Uma ex-namorada foi viajar e me deixou um K7 onde tinha uma versão

Hélio Flanders, do Vanguart

Hélio Flanders, do Vanguart

arrebatadora de ‘You’re a Big Girl Now’, do disco Blood On The Tracks [1975]. Fiquei voltando e escutando compulsivamente, aí resolvi ouvir o disco todo e tudo mudou para mim na música. A forma de se pensar em escrever as letras, de como se pronunciar as sílabas… Dylan é certamente minha maior influência estrangeira”.

Outra banda que parece ter bebido da fonte Dylan é a curitibana Charme Chulo, que adequou o folk gringo às nossas raízes brasileiras.

“Nós do Charme Chulo costumamos levantar a seguinte bandeira: ‘O folk no Brasil é música caipira’, mas Bob Dylan é o que? Rock e Folclore (ainda que norte americano) e dos ‘bão’!”, explica o vocalista Igor Filus.

Igor também comenta como foi seu primeiro contato com a musicalidade de Dylan. “O primeiro disco que ouvi foi Blonde on Blonde. Vi a capa do disco em um clipe da banda Belle and Sebastian, o que me fez ir atrás de Bob Dylan. Ou seja, cheguei até ele pelas bandas que ele influenciou, algo que acabou acontecendo em relação as minhas influências musicais dele no trabalho do Charme Chulo”.

Como todo músico itinerante, Bob se permitiu passar por mudanças em seu som: do folk de protesto, aderiu aos instrumentos elétricos, assumindo uma fase mais blues/rock, passou pelo country rock e até pelo gospel. Sobre suas diferentes fases, tanto Igor quanto Hélio expressam quais são suas preferidas.

“Gosto de todas as fases. Comecei pela fase folk e gosto muito dos primeiros álbuns, porém minha fase favorita é do Bringing It All Back Home até o Blonde on Blode”, comenta Hélio, do Vanguart.

Igor Filus, do Charme Chulo

Igor Filus, do Charme Chulo

“Citaria como o melhor disco, o seu début [Bob Dylan] de 1962, o mais roots e visceral de todos, uma revolução total. E como dizia Renato Russo, todos os outros até 1979, Slow Train, por aí…”, conta Igor, do Charme Chulo.

Apesar de existirem diversas bandas novas que tocam o que atualmente é chamado de folk, muita coisa aconteceu desde a década de 60, que transformou o gênero tocado por Dylan em uma variação do estilo.

“Uma diferença, ao meu ver, é o caráter politizado, a principal marca do folk dos anos 60, que se perdeu naturalmente pelas condições atuais da cultura ocidental. Somos de um outro modo, temos que decifrar os dilemas do nosso tempo, temos que representar nossos dias. Porém, muitas vezes, as bandas não conseguem alcançar isso e ficam apenas nos estereótipos musicais do estilo, outra infeliz tendência atual”, declara Igor.

Sobre essa leva de bandas novas que fazem um som com o pé no folk, Hélio indica outras boas: “Tem o Bad Folks, de Curitiba, tem a maravilhosa Mallu Magalhães e a Stephanie Toth de São Paulo”.

Enfim, Bob Dylan se tornou um ícone por ter influenciado tanto as gerações que vieram depois dele, quanto seus contemporâneos, como John Lennon.

“Dylan é tão único que seu legado seja talvez simplesmente o de ter existido um Bob Dylan um dia, como John Lennon ou Brian Wilson. Geniais em suas particularidades”, conclui Hélio.