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Kiko Dinucci: para todo os lados a arte sopra

[por Andréia Martins]

Músico que faz cinema. Artista-plástico que canta. Violão que desenha. Cineasta que versa. Imagens que compõem música. Arte soprando para os quatro cantos no chão de São Paulo.

Assim como o nome da canção de Lenine, Todas elas num só ser, todos ‘eles’ descritos acima resumem-se a um só: ao compositor e músico Kiko Dinucci.

“Tanto a música com a arte como um todo geraram muita solidão e ainda é assim. Comecei sozinho, mas com o tempo fui achando os meus iguais e aprendendo muito com eles, cada pessoa com quem eu toco é uma universidade (no bom sentido) pra mim. Gosto de trocar. É muito rico você poder se comunicar com pessoas de diferentes  nacionalidades e etnias,  e credos, chega a ser divino o dom que o ser humano tem de se comunicar com arte”, diz em entrevista ao Palco Alternativo.

E é assim que Kiko se comunica: por meio de imagens, sons e palavras. Hoje, além das diferentes formas de arte, Kiko se divide entre diferentes projetos na música: além de compositor e músico, divide com Douglas Germano as criações trágicas e cômicas do Duo Moviola, integra o Bando AfroMacarrônico, com o qual lançou o disco  Pastiche Nagô,em 2008, e faz uma sólida parceria com a cantora Juçara Marçal, com a qual gravou o álbum Padê, e, mais recentemente, no final de 2009, lançou o disco Na Boca dos Outros.

Assim como em outros trabalhos, o disco reforça a boa parceria de Kiko com a cantora Juçara Marçal. “Juçara, pra mim, é a maior cantora que conheço. O que interessa pra ela é arte, não glamour, ser a cantora da mídia, nada disso. É só ver a postura dela no palco, é um compromisso direto com a arte, o resto que se exploda. Ela no palco vai se transformando, começa a crescer e encosta a cabeça no teto. O disco Padê foi o nosso primeiro trabalho, foi o som que moldou tudo o que viria na sequência, os elementos da cultura africana e tudo mais. Estamos pra gravar um novo CD chamado Metá Metá, em parceria com Thiago França”, conta Kiko.

Na Boca dos Outros

CD Na Boca dos Outros: "músicas antigas, tinham teias de aranha", brinca Kiko

“O disco novo só tem meu nome mas não é solo. Quase todos meus discos levam meu nome, ou com a Juçara Marçal, ou Bando AfroMacarrônico. Todos tem a minha presença mas nenhum deles é 100% solo. Em todos a parceria é fundamental, isso fica ainda mais gritante com o Duo Moviola, com a presença do Douglas Germano. Trabalho sempre com parcerias, sejam elas com compositores, produtores ou músicos”, diz.

Para este trabalho, composto de 14 faixas, Kiko se cercou de diferentes cantores e cantoras como Fabiana Cozza, Maurício Pereira, Bruno Morais, Juçara Marçal, entre outros, cruzando ritmos brasileiros e africanos em uma linguagem voltada para o samba.

“As músicas do Na Boca dos Outros são muito antigas, a maioria de quase 10 anos atrás. O que eu fiz foi tirar da gaveta, deixar os novos arranjos determinantes no aspecto criativo e chamar as pessoas que tinham a ver com cada faixa. O fato de uma outra pessoa cantar daria uma roupagem nova a mais a essas velhas canções”. Para ouvir: http://www.myspace.com/kikodinucci.

Entre tantos lados, o lado A – Afro – de Kiko

Kiko é muitos. Já foi hardcore ao assumir a guitarra em uma das mais importantes bandas do hardcore paulista, o Personal Choice, em sua cidade natal, Guarulhos.  Aí trocou a guitarra pelo violão, e mergulhou no samba, na sua brasilidade, no seu lado afro.
“Meu interesse pela cultura afro veio no dia em que eu me olhei no espelho e falei pra mim mesmo: sou preto, no Brasil todo mundo é preto, seja sua pele clara ou escura, então vou atrás da minha história. E fui atrás da minha memória ancestral e descobri meu ancestral mais antigo, que é meu Orixá Logun Edé. Mergulhei num mar de informação infinito”.

Desse mergulho saiu o documentário Dança das Cabaças, dirigido por Kiko, um retrato poético sobre a paradoxal divindade Exu e as formas como o brasileiro vê esse personagem que, na África, era caracterizado como o princípio da vida.

O filme passa pelas diversas vertentes das religiões afro-descendentes, dos candomblés (de tradição Nagô, Gege, Bantu), Tambor de Mina, passando pela Umbanda e Quimbanda. Assista ao filme em http://www.dancadascabacas.blogspot.com.

Identidade pessoal descoberta, na música, Kiko parece não ter dúvidas de quem é. Apesar de reconhecer outros elementos, especialmente ritmos afros, na sua música é tudo samba. “Posso compor um thecno brega  que no fundo vai ser um samba, só sei fazer assim, graças a Deus”.

Quarto Negro: quatro rapazes, melancolia anticlichê, gretsch guitars e por aí vai

[por Andréia Martins]

Quarto negro. Pode ser qualquer coisa. Em uma rápida busca no Google, você vai descobrir que pode ser desde nome de música de Amado Batista ou Leandro e Leonardo até um simples quarto sem luz.

Por aqui, estamos falando mesmo é da banda Quarto Negro, formada por Eduardo Praça (vocal, guitarra e piano, ex-Ludovic), Fabio Brazil (baixo e voz), Thiago Klein (piano) e Diogo Menichelli (bateria). O nome não surgiu de nenhuma das influências acima ou de um apagão, como conta Praça.

“O nome surgiu de um documentário que assisti sobre a vida do Johnny Cash, do qual, em um capítulo da sua carreira, tomado por sentimentos extra-naturais, ele acabou por pintar um quarto de hotel inteiro de preto, movéis, parede, tudo. Aquilo me deixou tão interessado que surgiu a ideia. Às vezes, enxergam isso como uma manifestação depressiva ou algo do tipo, mas sempre me identifico com a expressão de liberdade e espontaniedade do caso”.

Se dependesse do som, dificilmente você diria que o Quarto Negro é uma banda brasileira. Nitidamente influenciados pelo jazz, blues e melancolia – mas sem soar deprê -, a banda surgiu em 2007 e, depois de dois EPs, é dela um dos discos nacionais mais esperados de 2010.

Os motivos são simples: uma sonoridade cheia de personalidade e mais denso, combinando guitarras, piano, metais e letras que falam de relacionamenos, perdas, e por aí vai, e Praça que, ex-integrante do Ludovic, já tem uma legião de fãs prestando atenção nos seus próximos passos.

Inicialmente, o Quarto Negro era uma banda de um homem só (Praça). Uma temporada ao lado de Klein em Nova York começou a dar novos rumos à banda. Na sequência, um convite irrecusável de um amigo, cineasta, para compor uma música tema – Zoroastro – e, tempos depois, o Quarto Negro já não era uma banda de um homem só.

“Nunca foi opção iniciar e tocar as coisas por conta própria. Em determinado momento, artísticamente, essa me pareceu a solução mais viável, mas não tardou pra perceber que a soma de pessoas só enriqueceria as coisas. Hoje em dia, posso dizer que tenho como companheiros, pessoas especiais e muito agregadoras. Seguramente, devo muito desse momento ao Thiago, Fabio e Diogo”, conta Praça em entrevista ao Palco Alternativo.

Toda a busca por algo novo e mudança do passado com o Ludovic, precisou de um tempo para Eduardo assumir outro projeto, o que as temporadas em NY e San Telmo, em Buenos Aires, ajudaram bastante. Nas palavras do próprio Praça, não era algo que faltava, mas que estava mal assimilado:

“Na verdade, acho que tinham coisas até demais. Os novos ares, serviram mais pra me desvincular, do que pra agregar, por incrível que isso soe. As pessoas se apegam muito ao fato da idéia de fugir buscando novas coisas pra si, quando na verdade, você precisa mesmo é de um tempo pra desfazer o nó todo que estava feito” , conta ele, sem deixar de lado toda a bagagem do Ludovic.

“Devo muito, talvez quase tudo, ao anos que passei com o Ludovic. Se existiram pessoas que me ajudaram e me formaram, como músico e compositor, foram eles. Não me canso de mencionar, que as coisas aconteceriam de forma muito mais devagar sem essa experiência musical e espiritual”.

Fora do Brasil

Além de vigor, a temporada no exterior trouxe novas experiências para a banda. “O fato de estar lá com o rosto aberto de forma tão contundente nos colocou em um patamar acima, definitivamente. Embora toda a barreira linguística e aspectos culturais terem movido menos do que eu imaginava, o fato de estar entregue há algo que apenas você acredita e entende, mexe mais com as pessoas do que qualquer interpretação fictícia do que você gostaria de ser”, diz Eduardo sobre os shows nos EUA.

A identificação do público talvez deva-se ao fato de que a música do Quarto Negro tem algo do rock alternativo feito lá fora, mais do que influências brasileiras. Ouvindo, a sensação que se tem é de que a música soa perfeita par a fog londrina ou para os dias nublados de Sampa.

“Não chega a ser algo que a gente discorde plenamente, mas não sei até que ponto nos vemos influenciados por algum clima que não nos pertence, seja lá londrino, porteño ou algo do tipo. Desde que me juntei aos meninos, sempre esperamos essa recepção de público/imprensa apontando a melancolia, mas nunca foi algo que procuramos ou que realmente acreditávamos, as coisas surgiram de forma natural e involuntária”, diz Praça.

EPs e próximos passos

Deposi do EP Zoroastro, uma das músicas mas impactantes do grupo, o Quarto Negro recrutou um time de peso para o EP seguinte,  Bom dia lua:  Chuck Hipolitho e Kevin Nix.

Praça conta que a parceria com Chuck já estava programada mas as agendas adiaram um pouco o encontro, que só foi acontecer no final de 2009. Com relação ao Kevin, “o Fabio, quando morou nos Estados Unidos, fez uma amizade, que por ironia e sorte do destino, dias antes da masterização no Brasil, nos levou aos engenheiros do estúdio em que o Big Star costumava trabalhar em Memphis. O contato foi rápido e produtivo”.

Uma das diferenças entre os EPs é a presença do piano de Thiago, que ganhou mais destaque nas canções no segundo EP, aumentando, de certa forma, o tom melancólico das canções.

Quanto ao próximo disco, Eduardo não dá muitos detalhes, mas por algumas entrevistas que tem dado, pode-se imaginar que os meninos pretendem dar um passo à frente, a exemplo do que fizeram nos dois EPs.

“Estamos em processo de composição. Pra ser sincero, esse assunto é tratado com muita ansiedade e expectativa. Estamos transbordando pra ter esse disco em mãos. Não temos os maiores detalhes do mundo pra dar, mas podemos adiantar que ele sai ainda em 2010, e que a gravação não deve ser feita no Brasil”.

Para ouvir, acesse: http://www.myspace.com/quartonegro.

Recife Lo-fi: em coletânea, Zeca Viana reúne variedade de sons e influências, unidas pelo sotaque

Foto: Bruna Rafaella / Divulgação Recife Lo-fi

 

[por Andréia Martins]

Zeca Viana é o que a gente pode chamar de um multiman. Baterista do Volver, tem projetos paralelos com outras bandas, projeto solo, estuda filosofia, é blogueiro e videomaker, canta, compõe, além de também tocar guitarra.

No meio desse turbilhão de atividades e ideias, Zeca arrumou um tempinho para organizar uma coletânea com o que há de melhor na nova safra da música de Recife: a Recife Lo-Fi, uma compilação gravada de um jeito bem caseiro e que tem como objetivo maior divulgar essas novas bandas, 21 ao todo. Entre elas, alguns artistas já bem conhecidos como Lulina e a banda Julia Says.

A variedade de sons e influências, unidas pelo sotaque e pela geografia, apresentam uma cena rica em diversidade, nem tão relacionada assim ao movimento Mangue Beat, o que às vezes parece sempre ser uma obrigação de artistas das bandas de lá.

O Palco Alternativo bateu um papo com Zeca, por e-mail, para saber um pouco mais sobre esse projeto, que em breve terá o seu volume 2. Puxe sua cadeira e confira!

Palco Alternativo – Quanto tempo você levou para garimpar novos sons para a coletânea? Fale um pouco de quando surgiu a ideia e do que você considerou ao escolher cada uma das 21 bandas.
Zeca Viana – Na verdade escuto muitas bandas recifenses pelo próprio convívio com os amigos, etc. Eu sempre pensei em fazer algo nesse sentido, de juntar essas bandas/artistas, um forma de divulgar essa produção. Então a ideia foi se formando na temporada que passei em São Paulo. Fui convidando bandas, preparando todo o material. Chegando em Recife, recebi apoio do Recife Rock, do Coquetel Molotov, da Revista O Grito e a Agência Alavanca, de São Paulo, além da TramaVirtual (que lançou a coletânea nacionalmente) que indicaram algumas bandas. No fim das contas, tivemos uma grande reunião entre amigos.

Quando se fala em Recife, especialmente sobre música, é quase impossível não ter como referência a música de Chico Sciene, o manguebeat. Como ouvinte e realizador, no que essa geração de bandas que você reuniu tem em comum ou o que mais a difere do manguebeat?
ZV – Acho que o Manifesto Mangue é antes de tudo uma ideia. Temos que respeitar isso e pensar dessa forma. Muitas vezes a leitura do Manifesto Mangue é mal feita, principalmente no sentido de exclusão: ou você tem um tambor na banda ou não é de Recife. A mídia em geral e os poderes públicos trabalharam muito com essa lógica. Por exemplo, a Stela Campos estava no olho dos acontecimentos, tinha ligação direta com Chico Science, cantava em inglês e não tinha tambor de maracatu na sua banda. Ela era do movimento MangueBeat? O que temos que entender é essa abertura para várias possibilidades que o manifesto visava. A ideia é antes inclusiva, de abertura do cenário para qualquer atividade artística.

O que vejo hoje é o que sempre vi acontecer em Recife: muitas bandas circulando, dialogando artisticamente com a cidade. Como eu disse, o manifesto foi muito mal lido pela mídia e pelos poderes públicos que trabalharam por muito tempo com uma lógica de “quase aversão ao que não é regional”. Hoje a coisa está mudando. Algumas bandas que cantam em inglês praticamente não entravam em editais, os concursos de música julgavam valores como “originalidade” de forma equivocada, etc. Chico Science usava um termo em inglês no seu nome, muita gente não entendeu o que isso queria dizer.

Qual é a Recife que vamos conhecer ouvindo essa coletêanea?
ZV – É o Recife gravado em casa. É um convite para que todos possam conhecer mais de perto essas produções, entrar nesses home studios e participar, puxar uma cadeira e conversar sobre música. Pensamos em abrir espaço para mostrar algumas produções praticamente inéditas e ainda artistas já conhecidos como Lulina, por exemplo. Não queremos restringir essa coletânea a “bandas lo-fi”, na verdade é uma coletânea de “músicas gravadas de forma lo-fi”, o que abre possibilidade para todos participarem. É um motivo para festejarmos e fazer o que gostamos, ouvir e falar sobre música.

Há alguma pretensão em levar esse projeto virtual para a estrada, em algo como um festival “Recife Lo-fi”?
ZV – Realizamos a Festa Recife Lo-fi no dia 5 de fevereiro em Recife, num lugar muito bacana chamado Quintal do Lima que abraçou a ideia. Todos da coletânea estavam presentes, tivemos shows com artistas da coletânea, discotecagem (com várias faixas da coletânea também), foi uma grande festa. Boas conversar, trocas de experiências, parcerias, tudo está acontecendo de uma forma bacana. Ficamos animados, a festa foi um sucesso, um público muito interessante compareceu, provavelmente faremos outras festas Recife Lo-Fi.

Das bandas participantes, você poderia citar umas três que, você acredita, vão dar o que falar antes do que esperam?
ZV – Gosto muito do trabalho de D Mingus, Jalu Maranhão, Matheus Mota, Lina Jamir, Allen Jerônimo, é difícil falar, tem muita gente bacana.

Tanta gente jovem reunida, diversas músicas pra lá e pra cá, alguma história curiosa ou engraçada durante a produção dessa coletânea, ou algo que tenha ocorrido com as bandas em suas gravações caseiras?
ZV- Na verdade foi engraçado quando a gente foi tirar as fotos de divulgação com todos juntos. É um batalhão de músicos, é difícil juntar tanta gente, coordenar. Fizemos a foto no centro do Recife, na Praça do Derby. Quando cheguei lá levei um susto, é muita gente! Sabe aqueles megafones? Pronto, acho que da próxima vez vou levar um desses. Mas a foto ficou ótima, minha companheira, a artista plástica Bruna Rafaella fez um bom trabalho fotográfico e de arte da coletânea. Acho que fizemos todos um bom trabalho de equipe.

Você é baterista do Volver, tem projetos paralelos com outras bandas, projeto solo, estuda filosofia, é blogueiro e videomaker, canta, compõe além de também tocar guitarra e agora ser uma espécie de “mecenas” da música de Recife. O que mais cabe no pacote de habilidades de Zeca Viana?
ZV – Não sei, vou fazendo aquilo que sinto necessidade, tento me expressar. Apesar de fazer música com a Volver e meu projeto solo gosto de trabalhar com vídeo, fotografia, pintura, gosto de desenhar também. Penso muito em desenvolver um trabalho em artes plásticas, quem sabe. Provavelmente farei algo nesse sentido. Gosto como se dão as relações artisticas nas obras de arte, é algo que me atrai. Dá pra trabalhar com vídeo e audio, música e desenho. Gosto dessas possibilidades.

Como vai ser o 2010 do Volver?
ZV – Estamos preparando o primeiro DVD da Volver gravado no lançamento do Acima da Chuva no Teatro de Santa Isabel. Foi lindo o show, com teatro lotado, todos cantando, muito bonito. Esperamos gravar o nosso terceiro disco ainda esse ano também.

E seus próximos projetos?

ZV – No meu projeto solo fiquei muito feliz com a eleição do meu primeiro disco solo, Seres Invisíveis, como o 3º Melhor Disco Nacional de 2009 pelo TramaVirtual, estou experimentando diferentes formatos, fiz alguns shows com o Conjunto Imaginário com uma pegada mais rock, fiz um EP chamado Trilha Sonora com temas instrumentais para um curta metragem de Leonardo Lacca, estou experimentando. Pretendo gravar meu segundo disco ainda esse ano e, no mais, ouvir bastante música, fazer muitos amigos e trabalhar bastante.

Para ouvir, baixar e compartilhar a coletânea Recife Lo-fi:

http://www.recifelofi.blogspot.com (blog oficial do projeto)

http://www.reciferock.com.br

http://www.tramavirtual.com.br

Para ouvir os sons de Zeca: http://www.myspace.com/zecaviana

As várias faces de Mônica Agena: guitarrista do Natiruts mostra seu lado rock no Moxine

 

 

O Moxine: Caju (bateria), Hagape Cakau (baixo) e Mônica Agena (voz e guitarra)

 

[por Andréia Martins]

Até onde pode ir a influência de um amigo? Bom, no caso de Mônica Agena, bastou ver um amigo surfista tocando uns hits do Raul Seixas no violão para a música bater à sua porta.

“As coisas foram acontecendo, quando percebi, estava trabalhando com música. Não tenho músicos na família, minha primeira referência foi um amigo surfista, que apareceu tocando os hits do Raul Seixas no violão. Aprendi a tocar com ele e me apaixonei pelas cordas. Um ano depois, ganhei de meu pai a primeira guitarra, uma Fender strato japonesa”, conta Mônica ao Palco Alternativo.

De lá pra cá, anos depois e algumas guitarras a mais (2 Tagimas, 1 Giannini, 1 Fender Strato e 1 Gibson Standard), Mônica, atual guitarrista do Natiruts, já fez de tudo um pouco na música. Deu aulas, já tocou em uma banda de covers, a Sky Funky Band, que tocava black music e disco, e em outra, o Krepax, e ainda desenvolveu um trabalho instrumental, sem contar a parceria com a banda brasiliense. Mas agora, com a sua banda, o Moxine, ela mostra seu lado rock.

“O sonho de ter uma banda de rock sempre existiu pra mim, acredito que a maioria das garotas e garotos começam a tocar motivados por esse sonho ou pela simples vontade de tocar uma música que gosta. Não acredito que a profissão seja uma inspiração pra moçada, pelo menos não no começo. Eu vivo esses dois universos, o profissional e o artístico. Tocar com diversas bandas me deu muita experiência profissional e amadurecimento na parte artística. Mas ter uma banda de rock, mesmo sendo encarado muitas vezes, por mim mesma, como um algo romântico demais, foi o que me motivou a tocar”.

Apesar do instrumento escolhido por ela ser mais tocado por homens do que mulheres, Mônica disse que isso nunca foi um problema. “Por esse lance de mulher tocando ser mais difícil de se ver, as pessoas acabavam querendo usar isso como um ‘diferencial’ em suas bandas, o que não deixa de ser um tratamento diferente por ser uma garota tocando. Como eu era uma menina um pouco radical, queria provar tudo pela minha capacidade de tocar, acabava me incomodando um pouco com esse apelo”.

O início do Moxine

Uma dos projetos musicais de Mônica, o Krepax, durou de 2005 a 2008. Além da guitarrista, a banda era composta por Dionisio Neto (vocal), Hagape Cakau (baixo) e Nana Rizinni (bateria). Quando o grupo se dispersou, começou a nascer o Moxine.

Ao lado das parceiras Nana e Hagape, Mônica deu início à brincadeira, como ela mesmo diz, e gravou o single I Wanna Talk About You, uma faixa que funciona muito bem como cartão de visitas da banda. Mostra a vibe electro pop da banda, um riff gostoso de acompanhar e bater o pé, daquelas músicas que você ouve e já se mexe.

Essa mudança de posição, com Mônica assumindo o microfone, cheia de atitude e sensualiade, deixou muita gente surpresa.

“Pode ser que tenha sido uma surpresa, mesmo para as pessoas próximas de mim, pois foi tudo muito rápido, nunca havia gravado nem me apresentado em shows cantando. I Wanna Talk About You foi a primeira experiência. Apenas tocar guitarra é muito prazeroso, mas quanto mais formas você tem de se expressar, mais formas você tem de acessar as pessoas. Por isso o lance de cantar e escrever, veio da necessidade de me comunicar”, conta.

O 1º EP

O primeiro EP do Moxine, Electric Kiss, saiu em (2009). Produzido por Rique Azevedo, traz quatro faixas:  I Wanna Talk About You, Electric Kiss, Good Choice e Out of Sight. “Componho e tenho muitas músicas guardadas, mas as composições do Electric Kiss  eram todas frescas, compostas e arranjadas pouco antes de gravarmos”, diz Mônica.

I Wanna Talk About You ganhou um clipe bem divertido, com muitas referências à estética dos videoclipes dos anos 80 ( repare no visual das meninas, nos objetos – aquele gravador e a fita cassete que você tanto sente falta – e no local da gravação), o que segundo ela, foi algo bem sem querer.

“Imagine um grupo de amigos com uma camera na mão, cada um contribuiu com o seu talento, figurino, direção de arte, etc. Foi assim que gravamos!”, comenta Mônica. Para o vídeo, gravado no brechó Túnel do Tempo, na Vila Mariana, o Moxine contou com Mauricio Eça na direção, Toni Pereira na direção de arte, Alexandra Fernandes no figurino, Stella Fernandes na maquiagem e Tony Tiger na edição.

O próximo clipe já tem música escolhida: Eletric Kiss. Com direção de Marina Quintanilha, o clipe deve ser lançado em março. Além disso, a banda também já está pensando em lançar um dico. “A maneira descompromissada de lançar clips, músicas, EP, traz uma sensação libertária muito inspiradora, mas eu vejo que o lançamento de um disco representa um marco na trajetória dos artistas. Com tanta liberdade, fica dificil decidir o próximo passo, mas estamos tendendo a lançar um LP”.

Participação no SXSW

Os brasileiros estão virando arroz de festa no festival South by Southwest, em Austin. E o Moxine já está arrumando as malas para se apresentar por lá, em março. Além de tocar para diferentes públicos, o festival é também uma conferência com mais de 4 mil empresas registradas, ou seja, uma boa oportunidade para novos contatos.

“Estamos preparando algo bem legal em parceria com um patrocindor, vamos divulgar a ação em março. Além de ser a nossa primeira apresentação internacional, é a primeira fora de São Paulo! Imagine, estamos bem ansiosos!”. A gente pode imaginar.

Para ouvir: www.myspace.com/moxine

Muito além do folk: os doces versos de Juliana R.

[por Andréia Martins]

Juliana R. será colocada, por muitos, na lista de novo artistas folk, mas ela vai além disso. De Sorocaba, interior paulista, direto para a capital, aos 20 e poucos anos ela vem conquistando, devagar, seu espaço na cena alternativa com doces letras autorais, simples, misturando idiomas e brincando com o jeito de cantar. Personalidade na voz, talvez seja essa a grande diferença de Juliana entre tantas novidades.

Um aperitivo do som de Juliana R. (abreviação de Rodrigues, para os mais curiosos) está disponível no site oficial da cantora (http://www.julianar.com). Nas 4 faixas, que integram o primeiro EP dela, lançado em 2008, podemos ver que as influências vão além do folk, com cada uma ganhando um clima bem diferente da outra. Um mix de sensações, seja na animada El Hueco, a romântica Since I’Ve Meet You, e a balada matadora If You Could See Me Now.

E enquanto ela brinca, tentando fugir das classificações musicais, se definindo ora como romântica, ora como experimental/latino (vide o My Space dela: http://www.myspace.com/juliana.r), podemos dizer que, apesar da brincadeira, pitadas de todos esses gêneros estão nas músicas.

O jornal O Globo colocou o nome dela na lista dos 10 artistas que prometem bombar em 2010. A previsão tem tudo pra se concretizar. Confira abaixo a entrevista que Juliana concedeu ao Palco Alternativo.

Você se lembra de quando escreveu ou rabiscou sua primeira música?
Juliana R. – Lembro sim. Eu tinha uns nove anos e era fã das Spice Girls. Meu pai deve ter guardado, haha.

Como você descobriu que música era o que você queria? Você era do tipo que tinha banda no colégio?
Juliana R. -Não lembro exatamente, mas quando era bem criança gostava de ficar cantarolando. Certa vez eu cantei num karaokê e gostei da experiência, acho que foi bem por aí. Depois com uns doze anos eu conheci as bandas independentes e me empolguei pra começar a tocar. Sempre gostei de compor, era uma forma de fugir daquela coisa chata de ter que ir pra escola, pois lá não aprendia coisas que queria.

Você do interior de Sampa, o que a fez vir pra cá? E, tudo está saindo como – ou quase como – você imaginou?
Juliana R. – Não tinha afinidade musical com muita gente na cidade em que morava, então decidi me mudar pra encontrar pessoas que compartilhassem das minhas ideias. Fora isso, em São Paulo tem muito lugar pra tocar, o que não acontece no interior, infelizmente. Por aqui tá tudo correndo bem, mas é difícil e eu ainda não sei exatamente o caminho pra se viver de música, mas acho que as coisas vão se acertar em breve pra todos que estão nesse meio. Estou otimista.

Você canta em português, inglês, espanhol, participou do “les provocateurs”, homenagem a artistas franceses… Como é essa brincadeira de idiomas, há coisas que você prefere dizer em uma língua do que eu em outra?
Juliana R. -Fiz músicas em vários idiomas mais por experimento mesmo, queria ver como ficariam. O legal é que a forma de colocar as palavras e a sonoridade muda conforme o idioma escolhido. Não dá pra cantar uma música em português se ela soa como uma música em inglês e por aí vai. Gosto também da parte da tradução, mas o próximo disco provavelmente será todo em português.

Aliás, como foi participar do Les Provocateurs? Qual a influência do Serge Gainsbourg na sua música?
Juliana R. -Foi a coisa mais legal que eu fiz! Quando vi a exposição e percebi que iria fazer parte daquilo, fiquei muito feliz. Nunca achei que um dia poderia cantar músicas que foram interpretadas pela France Gall e Françoise Hardy, foi muito prazeroso. Depois do Les Provocateurs, o Gainsbourg sem dúvida virou uma grande influência pra mim, pois tive um contato maior com suas músicas. Ele era inquieto e um grande compositor.

Uma coisa que me chamou atenção foi a sua voz, o jeito diferente com que você intepreta cada uma delas. Ora de um jeito meio debochado, em El Hueco, outra de um jeito mais denso e arrastado em Since I’ve Met You, o modo quase soletrado de Longe, enfim, a sonoridade das palavras é também algo forte na sua música.
Juliana R. -Sim, a interpretação sempre muda de acordo com a música, não dá pra cantar todas como se eu falasse da mesma coisa, por mais que os temas sejam parecidos. Antes eu não prestava muita atenção em como as palavras eram colocadas, cantava conforme eu ouvia a melodia na minha cabeça, agora tomo mais cuidado porque a voz não deixa de ser um instrumento também.

Queria que você falasse um pouco da canção El Hueco. Ela entrou nas coletâneas da revista Soma e do Grito e é uma das que mais faz sucesso no seu MySpace. Em que momento você a compôs e por que em espanhol?
Juliana R. -Certa vez um amigo me mandou um áudio que falava sobre o Cortázar e no final tinha uma pequena entrevista. Pensei que ficaria bom numa música, peguei o violão e comecei a cantar em cima do que tinha tocado. Na época eu tava lendo um livro que chamava “El Túnel”. Daí vem o nome.

Você escalou o Fábio, tecladista do Mamma Cadela, para produzir suas músicas. A banda tem um estilo bem versátil, reunindo influências que vão desde o rock psicodélico dos anos 70, ao jazz, ao trip hop. O que ele trouxe para a sua música e como rolou essa parceria?
Juliana R. -Muita gente passa em casa e acaba esquecendo coisas, foi aí que encontrei um cd do Mamma. Gostei muito da sonoridade e acabei entrando em contato com a banda. Acho que o Fábio deu uma visão de ouvinte, o que foi muito importante na gravação das músicas.

Você está finalizando as músicas para o disco ainda? Como está esse processo?
Juliana R. -O disco tá pronto desde set/09, mas todo esse tempo eu tava enrolada vendo como faria para lançá-lo e acabei me atrapalhando com outras coisas também. Como achei que dezembro não era um mês legal pra lançamento, acabei deixando pra esse ano e assim eu poderia resolver as coisas com mais calma. Agora só falta mandar pra fábrica.

Você tem feito shows em diversos lugares aqui em Sampa. Como estão seus planos para tocar fora daqui? Algum festival em vista?
Juliana R. -Vou esperar o disco sair pra ir atrás disso, porque aí fica mais fácil pra arrumar shows e eu terei o disco ali na mão. Por enquanto, nenhum festival em vista, mas pode me chamar que eu vou.

E, pra encerrar, o que você achou de integrar a lista do jornal O Globo dos cinco artistas que prometem bombar em 2010?
Juliana R. -Achei engraçado e fiquei feliz que tem gente que gosta da minha música. Tomara que 2010 seja um ano bom mesmo!

Skapolca, samba, groove… esse é o Sobrado 112

Sobrado 112: disco instrumental saindo do forno em parceria com Buguinha Dub

[por Andréia Martins]

O Sobrado 112 não é uma banda da qual poucos ouviram falar. Mas se você ainda não conhece, prepare-se para saber um pouco mais desse sexteto cujo gênero musical foi batizado de skapolca, apostando no groove e naquele sambinha nosso de cada dia.

A história do grupo começou em 2005, quando Victor saiu de Ribeirão Preto rumo ao Rio de Janeiro. Ele alugou um casarão na Glória com Claudinho (percussionista), na Rua Benjamin Constant, 112. Daí a origem do nome.

“Morei lá por um ano e quando saí da casa, o Leandro entrou para ocupar o quarto que eu deixei vago. Nessa época estavamos fazendo muito som em casa, criando músicas e foi praticamente natural o início da banda. Todos vinham de trajetórias com outras bandas e estávamos afim de criar a nossa parada, o nosso som. Foi a partir daí que tudo começou”, conta Victor em entrevista ao Palco Alternativo.

E começou com Desmanche, primeiro disco da banda, com participações especiais de Aldir Blanc e Lucas Santana. “Desmanche foi um marco importante na nossa carreira. Foi o nosso primeiro àlbum, nossa primeira vivência juntos em estúdio. Naquela época, não tínhamos a mesma formação que temos hoje. A relação com tudo era diferente. Eu e o Leandro fizemos toda a produção do disco e isso exigiu muito de nós”, conta Victor.

Mas a grande guinada do Sobrado aconteceu em 2008, quando juntaram-se à trupe Maurício Calmon, Pedro Dantas e Miguel Martins. A banda foi  destaque no festival caricoa Bota Pra Fazer Música e chamou a atenção do pessoal da OI FM, que iria apoiar a gravação do próximo disco, Isso Nunca Me Aconteceu Hoje.

Letras do cotidiano, groove, samba, reggae e pitadas de rock: esse é o som do Sobrado 112 em "Isso Nunca Me Aconteceu Hoje"

Com Bid na produção, o mesmo que produziu Afrociberdelia, de Chico Science & Nação Zumbi, Isso Nunca Me Aconteceu Hoje é um disco mais forte, que para Victor, mostra um lado mais expressivo do grupo. “Ele mostra um Sobrado 112 mais maduro, que sabe onde quer chegar. Isso é bem claro pela influência do rock. Tem muita guitarra e estruturas mais rockeadas,  sem deixar de lado o samba e delicadeza do jazz”.

O rock está em diversas faixas, mas o sexteto ainda faz uma boa mistura, como o ska Eu não quero ter razão, o sambinha cotidiano de Café, ou ainda o reggae de Duas de Cinco, entre outras. Nas letra, versos que falam do cotidiano,  uma espécie de crônica bem ritimada do dia a dia.

Sobre o tempo passado com o produtor Bid, só boas lembranças. “Ele virou praticamente um membro da banda por um período. Acho que ele nos fez enxergar o nosso potencial. Nos ensinou a ser mais cuidadosos com o estúdio e a pensar com mais carinho nas canções. Ele direcionou tudo pra um lado muito positivo. A conexão entre nós foi 100%. Ficamos no estúdio dele por um mês gravando todo dia. Dá até saudade”, diz Victor.

Agora, o próximo plano da banda é lançar o segundo disco. Isso mesmo. Depois do carnaval o grupo vai lançar aquele que seria o seu segundo disco, Skapolquinha, um disco instrumental gravado ao vivo – e em um dia – no YB estúdio em São Paulo, em junho de 2009, com o amigo Buguinha Dub, produtor e nome forte do dub no Brasil.

Abaixo, o vídeo de Grajaú, uma canção curiosa que Victor garante: “Foi uma história que não aconteceu, fruto de nossa imaginação”.

Para ouvir e saber mais

Quem quiser ouvir e conhecer melhor o Sobrado 112, basta acessar o blog da banda no site http://www.sobrado112.com. Lá, além das músicas, a galera costuma postar coisas do dia a dia, o que deixa o clima bem sala de casa, entre amigos.

E mais: o disco Isso Nunca Me Aconteceu Antes já pode ser adquirido nas lojas Saraiva, inclusive pela internet. Para quem está na grande São Paulo a taxa de entrega é gratuita.

Disco clássico: do samba a bossa, a diversidade da música popular brasileira em Acabou Chorare

A 'comunidade' Novos Baianos na capa do disco Acabou Chorare, de 1972

[por Andréia Martins]

Nesse carnaval, a trilha sonora aqui em casa foi Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Música brasileira da mais pura e fina flor. Samba, MPB, bossa, baião, forró, rock, está tudo ali, nesse que foi o segundo disco dos Novos Baianos.

Lançado em 1972, é um dos clássicos da música brasileira. Não à toa, foi eleito pela Rolling Stone brasileira como o melhor disco nacional de todos os tempos, de uma lista de 100.

O primeiro verso do disco, na música Brasil Pandeiro – samba que Assis Valente compôs em 1940 para Carmem Miranda – já diz a que veio: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor…”.

Nos lados A e B, o disco traz canções que se tornaram clássicas como Preta Pretinha, Mistérios do Planeta, A Menina Dança e a que dá título ao disco, Acabou Chorare, todas essas parcerias de Moraes Moreira e Luiz Galvão. Essa última, uma clara referência a João Gilberto, que havia passado um tempo com o grupo, ensinando alguns truques da bossa nova.

Também estão no álbum Brasil Pandeiro, Tinindo Trincando, Swing de Campo Grande, Besta é Tu e Um Bilhete Pra Didi.

O grupo tinha como principais integrantes Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Baby Consuelo, além de Jorginho, Dadi e Baixinho. Sem contar os eventuais colaboradores da ‘comunidade’ Novos Baianos.

Naquele tempo, eles viviam como uma comunidade em Jacarepaguá, eram os nossos hippies da MPB. O ar de liberdade, fraternidade, otimismo e alegria, parte da proposta de um novo modelo de vida do grupo,  foi transportado para o disco, um clima de abra a janela e venha ver o sol nascer.

Com supervisão geral de João Araújo, coordenação musical de Eustáquio Sena, o LP vinha numa embalagem de luxo, com capa dupla e um texto explicativo de Galvão contando um pouco a história das músicas e dos integrantes do grupo.

O que faz desse trabalho um disco clássico, além da forma – uma vida alternativa com a liberdade sendo palavra de ordem – e do período em que foi concebido – o Brasil ainda vivia os anos de chumbo –  é a rica musicalidade do álbum, que reúne diversos estilos da música popular brasileira.

Especialmente o violão de Moraes duelando amigavelmente com os solos de Pepeu – é ali, em solos como os de Mistérios do Planeta, A Menina Dança e em Tinindo Trincando, que Pepeu cravou seu nome na lista dos melhores guitarristas brasileiros e mostrou sua capacidade como arranjador. Com ele, até o baião ficou rock.

O disco colocou os Novos Baianos na lista dos grandes nomes da música brasileira. A banda não chegaria até os anos 80, mas fez história até no carnaval baiano: o sucesso foi tanto que o grupo saiu em um trio elétrico e Moraes foi o primeiro a cantar em um trio elétrico, pois antes as apresentações eram apenas intrumentais.

Abaixo, um vídeo de Mistério do Planeta, tirado do filme “Novos Baianos Futebol Clube”, de Solano Ribeiro, originalmente gravado em 1973 no sítio Cantinho do Vovô, em Jacarepaguá. Paulinho Boca rouba a cena, no olhar e na voz.