Recife Lo-fi: em coletânea, Zeca Viana reúne variedade de sons e influências, unidas pelo sotaque

Foto: Bruna Rafaella / Divulgação Recife Lo-fi

 

[por Andréia Martins]

Zeca Viana é o que a gente pode chamar de um multiman. Baterista do Volver, tem projetos paralelos com outras bandas, projeto solo, estuda filosofia, é blogueiro e videomaker, canta, compõe, além de também tocar guitarra.

No meio desse turbilhão de atividades e ideias, Zeca arrumou um tempinho para organizar uma coletânea com o que há de melhor na nova safra da música de Recife: a Recife Lo-Fi, uma compilação gravada de um jeito bem caseiro e que tem como objetivo maior divulgar essas novas bandas, 21 ao todo. Entre elas, alguns artistas já bem conhecidos como Lulina e a banda Julia Says.

A variedade de sons e influências, unidas pelo sotaque e pela geografia, apresentam uma cena rica em diversidade, nem tão relacionada assim ao movimento Mangue Beat, o que às vezes parece sempre ser uma obrigação de artistas das bandas de lá.

O Palco Alternativo bateu um papo com Zeca, por e-mail, para saber um pouco mais sobre esse projeto, que em breve terá o seu volume 2. Puxe sua cadeira e confira!

Palco Alternativo – Quanto tempo você levou para garimpar novos sons para a coletânea? Fale um pouco de quando surgiu a ideia e do que você considerou ao escolher cada uma das 21 bandas.
Zeca Viana – Na verdade escuto muitas bandas recifenses pelo próprio convívio com os amigos, etc. Eu sempre pensei em fazer algo nesse sentido, de juntar essas bandas/artistas, um forma de divulgar essa produção. Então a ideia foi se formando na temporada que passei em São Paulo. Fui convidando bandas, preparando todo o material. Chegando em Recife, recebi apoio do Recife Rock, do Coquetel Molotov, da Revista O Grito e a Agência Alavanca, de São Paulo, além da TramaVirtual (que lançou a coletânea nacionalmente) que indicaram algumas bandas. No fim das contas, tivemos uma grande reunião entre amigos.

Quando se fala em Recife, especialmente sobre música, é quase impossível não ter como referência a música de Chico Sciene, o manguebeat. Como ouvinte e realizador, no que essa geração de bandas que você reuniu tem em comum ou o que mais a difere do manguebeat?
ZV – Acho que o Manifesto Mangue é antes de tudo uma ideia. Temos que respeitar isso e pensar dessa forma. Muitas vezes a leitura do Manifesto Mangue é mal feita, principalmente no sentido de exclusão: ou você tem um tambor na banda ou não é de Recife. A mídia em geral e os poderes públicos trabalharam muito com essa lógica. Por exemplo, a Stela Campos estava no olho dos acontecimentos, tinha ligação direta com Chico Science, cantava em inglês e não tinha tambor de maracatu na sua banda. Ela era do movimento MangueBeat? O que temos que entender é essa abertura para várias possibilidades que o manifesto visava. A ideia é antes inclusiva, de abertura do cenário para qualquer atividade artística.

O que vejo hoje é o que sempre vi acontecer em Recife: muitas bandas circulando, dialogando artisticamente com a cidade. Como eu disse, o manifesto foi muito mal lido pela mídia e pelos poderes públicos que trabalharam por muito tempo com uma lógica de “quase aversão ao que não é regional”. Hoje a coisa está mudando. Algumas bandas que cantam em inglês praticamente não entravam em editais, os concursos de música julgavam valores como “originalidade” de forma equivocada, etc. Chico Science usava um termo em inglês no seu nome, muita gente não entendeu o que isso queria dizer.

Qual é a Recife que vamos conhecer ouvindo essa coletêanea?
ZV – É o Recife gravado em casa. É um convite para que todos possam conhecer mais de perto essas produções, entrar nesses home studios e participar, puxar uma cadeira e conversar sobre música. Pensamos em abrir espaço para mostrar algumas produções praticamente inéditas e ainda artistas já conhecidos como Lulina, por exemplo. Não queremos restringir essa coletânea a “bandas lo-fi”, na verdade é uma coletânea de “músicas gravadas de forma lo-fi”, o que abre possibilidade para todos participarem. É um motivo para festejarmos e fazer o que gostamos, ouvir e falar sobre música.

Há alguma pretensão em levar esse projeto virtual para a estrada, em algo como um festival “Recife Lo-fi”?
ZV – Realizamos a Festa Recife Lo-fi no dia 5 de fevereiro em Recife, num lugar muito bacana chamado Quintal do Lima que abraçou a ideia. Todos da coletânea estavam presentes, tivemos shows com artistas da coletânea, discotecagem (com várias faixas da coletânea também), foi uma grande festa. Boas conversar, trocas de experiências, parcerias, tudo está acontecendo de uma forma bacana. Ficamos animados, a festa foi um sucesso, um público muito interessante compareceu, provavelmente faremos outras festas Recife Lo-Fi.

Das bandas participantes, você poderia citar umas três que, você acredita, vão dar o que falar antes do que esperam?
ZV – Gosto muito do trabalho de D Mingus, Jalu Maranhão, Matheus Mota, Lina Jamir, Allen Jerônimo, é difícil falar, tem muita gente bacana.

Tanta gente jovem reunida, diversas músicas pra lá e pra cá, alguma história curiosa ou engraçada durante a produção dessa coletânea, ou algo que tenha ocorrido com as bandas em suas gravações caseiras?
ZV- Na verdade foi engraçado quando a gente foi tirar as fotos de divulgação com todos juntos. É um batalhão de músicos, é difícil juntar tanta gente, coordenar. Fizemos a foto no centro do Recife, na Praça do Derby. Quando cheguei lá levei um susto, é muita gente! Sabe aqueles megafones? Pronto, acho que da próxima vez vou levar um desses. Mas a foto ficou ótima, minha companheira, a artista plástica Bruna Rafaella fez um bom trabalho fotográfico e de arte da coletânea. Acho que fizemos todos um bom trabalho de equipe.

Você é baterista do Volver, tem projetos paralelos com outras bandas, projeto solo, estuda filosofia, é blogueiro e videomaker, canta, compõe além de também tocar guitarra e agora ser uma espécie de “mecenas” da música de Recife. O que mais cabe no pacote de habilidades de Zeca Viana?
ZV – Não sei, vou fazendo aquilo que sinto necessidade, tento me expressar. Apesar de fazer música com a Volver e meu projeto solo gosto de trabalhar com vídeo, fotografia, pintura, gosto de desenhar também. Penso muito em desenvolver um trabalho em artes plásticas, quem sabe. Provavelmente farei algo nesse sentido. Gosto como se dão as relações artisticas nas obras de arte, é algo que me atrai. Dá pra trabalhar com vídeo e audio, música e desenho. Gosto dessas possibilidades.

Como vai ser o 2010 do Volver?
ZV – Estamos preparando o primeiro DVD da Volver gravado no lançamento do Acima da Chuva no Teatro de Santa Isabel. Foi lindo o show, com teatro lotado, todos cantando, muito bonito. Esperamos gravar o nosso terceiro disco ainda esse ano também.

E seus próximos projetos?

ZV – No meu projeto solo fiquei muito feliz com a eleição do meu primeiro disco solo, Seres Invisíveis, como o 3º Melhor Disco Nacional de 2009 pelo TramaVirtual, estou experimentando diferentes formatos, fiz alguns shows com o Conjunto Imaginário com uma pegada mais rock, fiz um EP chamado Trilha Sonora com temas instrumentais para um curta metragem de Leonardo Lacca, estou experimentando. Pretendo gravar meu segundo disco ainda esse ano e, no mais, ouvir bastante música, fazer muitos amigos e trabalhar bastante.

Para ouvir, baixar e compartilhar a coletânea Recife Lo-fi:

http://www.recifelofi.blogspot.com (blog oficial do projeto)

http://www.reciferock.com.br

http://www.tramavirtual.com.br

Para ouvir os sons de Zeca: http://www.myspace.com/zecaviana

As várias faces de Mônica Agena: guitarrista do Natiruts mostra seu lado rock no Moxine

 

 

O Moxine: Caju (bateria), Hagape Cakau (baixo) e Mônica Agena (voz e guitarra)

 

[por Andréia Martins]

Até onde pode ir a influência de um amigo? Bom, no caso de Mônica Agena, bastou ver um amigo surfista tocando uns hits do Raul Seixas no violão para a música bater à sua porta.

“As coisas foram acontecendo, quando percebi, estava trabalhando com música. Não tenho músicos na família, minha primeira referência foi um amigo surfista, que apareceu tocando os hits do Raul Seixas no violão. Aprendi a tocar com ele e me apaixonei pelas cordas. Um ano depois, ganhei de meu pai a primeira guitarra, uma Fender strato japonesa”, conta Mônica ao Palco Alternativo.

De lá pra cá, anos depois e algumas guitarras a mais (2 Tagimas, 1 Giannini, 1 Fender Strato e 1 Gibson Standard), Mônica, atual guitarrista do Natiruts, já fez de tudo um pouco na música. Deu aulas, já tocou em uma banda de covers, a Sky Funky Band, que tocava black music e disco, e em outra, o Krepax, e ainda desenvolveu um trabalho instrumental, sem contar a parceria com a banda brasiliense. Mas agora, com a sua banda, o Moxine, ela mostra seu lado rock.

“O sonho de ter uma banda de rock sempre existiu pra mim, acredito que a maioria das garotas e garotos começam a tocar motivados por esse sonho ou pela simples vontade de tocar uma música que gosta. Não acredito que a profissão seja uma inspiração pra moçada, pelo menos não no começo. Eu vivo esses dois universos, o profissional e o artístico. Tocar com diversas bandas me deu muita experiência profissional e amadurecimento na parte artística. Mas ter uma banda de rock, mesmo sendo encarado muitas vezes, por mim mesma, como um algo romântico demais, foi o que me motivou a tocar”.

Apesar do instrumento escolhido por ela ser mais tocado por homens do que mulheres, Mônica disse que isso nunca foi um problema. “Por esse lance de mulher tocando ser mais difícil de se ver, as pessoas acabavam querendo usar isso como um ‘diferencial’ em suas bandas, o que não deixa de ser um tratamento diferente por ser uma garota tocando. Como eu era uma menina um pouco radical, queria provar tudo pela minha capacidade de tocar, acabava me incomodando um pouco com esse apelo”.

O início do Moxine

Uma dos projetos musicais de Mônica, o Krepax, durou de 2005 a 2008. Além da guitarrista, a banda era composta por Dionisio Neto (vocal), Hagape Cakau (baixo) e Nana Rizinni (bateria). Quando o grupo se dispersou, começou a nascer o Moxine.

Ao lado das parceiras Nana e Hagape, Mônica deu início à brincadeira, como ela mesmo diz, e gravou o single I Wanna Talk About You, uma faixa que funciona muito bem como cartão de visitas da banda. Mostra a vibe electro pop da banda, um riff gostoso de acompanhar e bater o pé, daquelas músicas que você ouve e já se mexe.

Essa mudança de posição, com Mônica assumindo o microfone, cheia de atitude e sensualiade, deixou muita gente surpresa.

“Pode ser que tenha sido uma surpresa, mesmo para as pessoas próximas de mim, pois foi tudo muito rápido, nunca havia gravado nem me apresentado em shows cantando. I Wanna Talk About You foi a primeira experiência. Apenas tocar guitarra é muito prazeroso, mas quanto mais formas você tem de se expressar, mais formas você tem de acessar as pessoas. Por isso o lance de cantar e escrever, veio da necessidade de me comunicar”, conta.

O 1º EP

O primeiro EP do Moxine, Electric Kiss, saiu em (2009). Produzido por Rique Azevedo, traz quatro faixas:  I Wanna Talk About You, Electric Kiss, Good Choice e Out of Sight. “Componho e tenho muitas músicas guardadas, mas as composições do Electric Kiss  eram todas frescas, compostas e arranjadas pouco antes de gravarmos”, diz Mônica.

I Wanna Talk About You ganhou um clipe bem divertido, com muitas referências à estética dos videoclipes dos anos 80 ( repare no visual das meninas, nos objetos – aquele gravador e a fita cassete que você tanto sente falta – e no local da gravação), o que segundo ela, foi algo bem sem querer.

“Imagine um grupo de amigos com uma camera na mão, cada um contribuiu com o seu talento, figurino, direção de arte, etc. Foi assim que gravamos!”, comenta Mônica. Para o vídeo, gravado no brechó Túnel do Tempo, na Vila Mariana, o Moxine contou com Mauricio Eça na direção, Toni Pereira na direção de arte, Alexandra Fernandes no figurino, Stella Fernandes na maquiagem e Tony Tiger na edição.

O próximo clipe já tem música escolhida: Eletric Kiss. Com direção de Marina Quintanilha, o clipe deve ser lançado em março. Além disso, a banda também já está pensando em lançar um dico. “A maneira descompromissada de lançar clips, músicas, EP, traz uma sensação libertária muito inspiradora, mas eu vejo que o lançamento de um disco representa um marco na trajetória dos artistas. Com tanta liberdade, fica dificil decidir o próximo passo, mas estamos tendendo a lançar um LP”.

Participação no SXSW

Os brasileiros estão virando arroz de festa no festival South by Southwest, em Austin. E o Moxine já está arrumando as malas para se apresentar por lá, em março. Além de tocar para diferentes públicos, o festival é também uma conferência com mais de 4 mil empresas registradas, ou seja, uma boa oportunidade para novos contatos.

“Estamos preparando algo bem legal em parceria com um patrocindor, vamos divulgar a ação em março. Além de ser a nossa primeira apresentação internacional, é a primeira fora de São Paulo! Imagine, estamos bem ansiosos!”. A gente pode imaginar.

Para ouvir: www.myspace.com/moxine

Muito além do folk: os doces versos de Juliana R.

[por Andréia Martins]

Juliana R. será colocada, por muitos, na lista de novo artistas folk, mas ela vai além disso. De Sorocaba, interior paulista, direto para a capital, aos 20 e poucos anos ela vem conquistando, devagar, seu espaço na cena alternativa com doces letras autorais, simples, misturando idiomas e brincando com o jeito de cantar. Personalidade na voz, talvez seja essa a grande diferença de Juliana entre tantas novidades.

Um aperitivo do som de Juliana R. (abreviação de Rodrigues, para os mais curiosos) está disponível no site oficial da cantora (http://www.julianar.com). Nas 4 faixas, que integram o primeiro EP dela, lançado em 2008, podemos ver que as influências vão além do folk, com cada uma ganhando um clima bem diferente da outra. Um mix de sensações, seja na animada El Hueco, a romântica Since I’Ve Meet You, e a balada matadora If You Could See Me Now.

E enquanto ela brinca, tentando fugir das classificações musicais, se definindo ora como romântica, ora como experimental/latino (vide o My Space dela: http://www.myspace.com/juliana.r), podemos dizer que, apesar da brincadeira, pitadas de todos esses gêneros estão nas músicas.

O jornal O Globo colocou o nome dela na lista dos 10 artistas que prometem bombar em 2010. A previsão tem tudo pra se concretizar. Confira abaixo a entrevista que Juliana concedeu ao Palco Alternativo.

Você se lembra de quando escreveu ou rabiscou sua primeira música?
Juliana R. – Lembro sim. Eu tinha uns nove anos e era fã das Spice Girls. Meu pai deve ter guardado, haha.

Como você descobriu que música era o que você queria? Você era do tipo que tinha banda no colégio?
Juliana R. -Não lembro exatamente, mas quando era bem criança gostava de ficar cantarolando. Certa vez eu cantei num karaokê e gostei da experiência, acho que foi bem por aí. Depois com uns doze anos eu conheci as bandas independentes e me empolguei pra começar a tocar. Sempre gostei de compor, era uma forma de fugir daquela coisa chata de ter que ir pra escola, pois lá não aprendia coisas que queria.

Você do interior de Sampa, o que a fez vir pra cá? E, tudo está saindo como – ou quase como – você imaginou?
Juliana R. – Não tinha afinidade musical com muita gente na cidade em que morava, então decidi me mudar pra encontrar pessoas que compartilhassem das minhas ideias. Fora isso, em São Paulo tem muito lugar pra tocar, o que não acontece no interior, infelizmente. Por aqui tá tudo correndo bem, mas é difícil e eu ainda não sei exatamente o caminho pra se viver de música, mas acho que as coisas vão se acertar em breve pra todos que estão nesse meio. Estou otimista.

Você canta em português, inglês, espanhol, participou do “les provocateurs”, homenagem a artistas franceses… Como é essa brincadeira de idiomas, há coisas que você prefere dizer em uma língua do que eu em outra?
Juliana R. -Fiz músicas em vários idiomas mais por experimento mesmo, queria ver como ficariam. O legal é que a forma de colocar as palavras e a sonoridade muda conforme o idioma escolhido. Não dá pra cantar uma música em português se ela soa como uma música em inglês e por aí vai. Gosto também da parte da tradução, mas o próximo disco provavelmente será todo em português.

Aliás, como foi participar do Les Provocateurs? Qual a influência do Serge Gainsbourg na sua música?
Juliana R. -Foi a coisa mais legal que eu fiz! Quando vi a exposição e percebi que iria fazer parte daquilo, fiquei muito feliz. Nunca achei que um dia poderia cantar músicas que foram interpretadas pela France Gall e Françoise Hardy, foi muito prazeroso. Depois do Les Provocateurs, o Gainsbourg sem dúvida virou uma grande influência pra mim, pois tive um contato maior com suas músicas. Ele era inquieto e um grande compositor.

Uma coisa que me chamou atenção foi a sua voz, o jeito diferente com que você intepreta cada uma delas. Ora de um jeito meio debochado, em El Hueco, outra de um jeito mais denso e arrastado em Since I’ve Met You, o modo quase soletrado de Longe, enfim, a sonoridade das palavras é também algo forte na sua música.
Juliana R. -Sim, a interpretação sempre muda de acordo com a música, não dá pra cantar todas como se eu falasse da mesma coisa, por mais que os temas sejam parecidos. Antes eu não prestava muita atenção em como as palavras eram colocadas, cantava conforme eu ouvia a melodia na minha cabeça, agora tomo mais cuidado porque a voz não deixa de ser um instrumento também.

Queria que você falasse um pouco da canção El Hueco. Ela entrou nas coletâneas da revista Soma e do Grito e é uma das que mais faz sucesso no seu MySpace. Em que momento você a compôs e por que em espanhol?
Juliana R. -Certa vez um amigo me mandou um áudio que falava sobre o Cortázar e no final tinha uma pequena entrevista. Pensei que ficaria bom numa música, peguei o violão e comecei a cantar em cima do que tinha tocado. Na época eu tava lendo um livro que chamava “El Túnel”. Daí vem o nome.

Você escalou o Fábio, tecladista do Mamma Cadela, para produzir suas músicas. A banda tem um estilo bem versátil, reunindo influências que vão desde o rock psicodélico dos anos 70, ao jazz, ao trip hop. O que ele trouxe para a sua música e como rolou essa parceria?
Juliana R. -Muita gente passa em casa e acaba esquecendo coisas, foi aí que encontrei um cd do Mamma. Gostei muito da sonoridade e acabei entrando em contato com a banda. Acho que o Fábio deu uma visão de ouvinte, o que foi muito importante na gravação das músicas.

Você está finalizando as músicas para o disco ainda? Como está esse processo?
Juliana R. -O disco tá pronto desde set/09, mas todo esse tempo eu tava enrolada vendo como faria para lançá-lo e acabei me atrapalhando com outras coisas também. Como achei que dezembro não era um mês legal pra lançamento, acabei deixando pra esse ano e assim eu poderia resolver as coisas com mais calma. Agora só falta mandar pra fábrica.

Você tem feito shows em diversos lugares aqui em Sampa. Como estão seus planos para tocar fora daqui? Algum festival em vista?
Juliana R. -Vou esperar o disco sair pra ir atrás disso, porque aí fica mais fácil pra arrumar shows e eu terei o disco ali na mão. Por enquanto, nenhum festival em vista, mas pode me chamar que eu vou.

E, pra encerrar, o que você achou de integrar a lista do jornal O Globo dos cinco artistas que prometem bombar em 2010?
Juliana R. -Achei engraçado e fiquei feliz que tem gente que gosta da minha música. Tomara que 2010 seja um ano bom mesmo!

Skapolca, samba, groove… esse é o Sobrado 112

Sobrado 112: disco instrumental saindo do forno em parceria com Buguinha Dub

[por Andréia Martins]

O Sobrado 112 não é uma banda da qual poucos ouviram falar. Mas se você ainda não conhece, prepare-se para saber um pouco mais desse sexteto cujo gênero musical foi batizado de skapolca, apostando no groove e naquele sambinha nosso de cada dia.

A história do grupo começou em 2005, quando Victor saiu de Ribeirão Preto rumo ao Rio de Janeiro. Ele alugou um casarão na Glória com Claudinho (percussionista), na Rua Benjamin Constant, 112. Daí a origem do nome.

“Morei lá por um ano e quando saí da casa, o Leandro entrou para ocupar o quarto que eu deixei vago. Nessa época estavamos fazendo muito som em casa, criando músicas e foi praticamente natural o início da banda. Todos vinham de trajetórias com outras bandas e estávamos afim de criar a nossa parada, o nosso som. Foi a partir daí que tudo começou”, conta Victor em entrevista ao Palco Alternativo.

E começou com Desmanche, primeiro disco da banda, com participações especiais de Aldir Blanc e Lucas Santana. “Desmanche foi um marco importante na nossa carreira. Foi o nosso primeiro àlbum, nossa primeira vivência juntos em estúdio. Naquela época, não tínhamos a mesma formação que temos hoje. A relação com tudo era diferente. Eu e o Leandro fizemos toda a produção do disco e isso exigiu muito de nós”, conta Victor.

Mas a grande guinada do Sobrado aconteceu em 2008, quando juntaram-se à trupe Maurício Calmon, Pedro Dantas e Miguel Martins. A banda foi  destaque no festival caricoa Bota Pra Fazer Música e chamou a atenção do pessoal da OI FM, que iria apoiar a gravação do próximo disco, Isso Nunca Me Aconteceu Hoje.

Letras do cotidiano, groove, samba, reggae e pitadas de rock: esse é o som do Sobrado 112 em "Isso Nunca Me Aconteceu Hoje"

Com Bid na produção, o mesmo que produziu Afrociberdelia, de Chico Science & Nação Zumbi, Isso Nunca Me Aconteceu Hoje é um disco mais forte, que para Victor, mostra um lado mais expressivo do grupo. “Ele mostra um Sobrado 112 mais maduro, que sabe onde quer chegar. Isso é bem claro pela influência do rock. Tem muita guitarra e estruturas mais rockeadas,  sem deixar de lado o samba e delicadeza do jazz”.

O rock está em diversas faixas, mas o sexteto ainda faz uma boa mistura, como o ska Eu não quero ter razão, o sambinha cotidiano de Café, ou ainda o reggae de Duas de Cinco, entre outras. Nas letra, versos que falam do cotidiano,  uma espécie de crônica bem ritimada do dia a dia.

Sobre o tempo passado com o produtor Bid, só boas lembranças. “Ele virou praticamente um membro da banda por um período. Acho que ele nos fez enxergar o nosso potencial. Nos ensinou a ser mais cuidadosos com o estúdio e a pensar com mais carinho nas canções. Ele direcionou tudo pra um lado muito positivo. A conexão entre nós foi 100%. Ficamos no estúdio dele por um mês gravando todo dia. Dá até saudade”, diz Victor.

Agora, o próximo plano da banda é lançar o segundo disco. Isso mesmo. Depois do carnaval o grupo vai lançar aquele que seria o seu segundo disco, Skapolquinha, um disco instrumental gravado ao vivo – e em um dia – no YB estúdio em São Paulo, em junho de 2009, com o amigo Buguinha Dub, produtor e nome forte do dub no Brasil.

Abaixo, o vídeo de Grajaú, uma canção curiosa que Victor garante: “Foi uma história que não aconteceu, fruto de nossa imaginação”.

Para ouvir e saber mais

Quem quiser ouvir e conhecer melhor o Sobrado 112, basta acessar o blog da banda no site http://www.sobrado112.com. Lá, além das músicas, a galera costuma postar coisas do dia a dia, o que deixa o clima bem sala de casa, entre amigos.

E mais: o disco Isso Nunca Me Aconteceu Antes já pode ser adquirido nas lojas Saraiva, inclusive pela internet. Para quem está na grande São Paulo a taxa de entrega é gratuita.

Disco clássico: do samba a bossa, a diversidade da música popular brasileira em Acabou Chorare

A 'comunidade' Novos Baianos na capa do disco Acabou Chorare, de 1972

[por Andréia Martins]

Nesse carnaval, a trilha sonora aqui em casa foi Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Música brasileira da mais pura e fina flor. Samba, MPB, bossa, baião, forró, rock, está tudo ali, nesse que foi o segundo disco dos Novos Baianos.

Lançado em 1972, é um dos clássicos da música brasileira. Não à toa, foi eleito pela Rolling Stone brasileira como o melhor disco nacional de todos os tempos, de uma lista de 100.

O primeiro verso do disco, na música Brasil Pandeiro – samba que Assis Valente compôs em 1940 para Carmem Miranda – já diz a que veio: “Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor…”.

Nos lados A e B, o disco traz canções que se tornaram clássicas como Preta Pretinha, Mistérios do Planeta, A Menina Dança e a que dá título ao disco, Acabou Chorare, todas essas parcerias de Moraes Moreira e Luiz Galvão. Essa última, uma clara referência a João Gilberto, que havia passado um tempo com o grupo, ensinando alguns truques da bossa nova.

Também estão no álbum Brasil Pandeiro, Tinindo Trincando, Swing de Campo Grande, Besta é Tu e Um Bilhete Pra Didi.

O grupo tinha como principais integrantes Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Baby Consuelo, além de Jorginho, Dadi e Baixinho. Sem contar os eventuais colaboradores da ‘comunidade’ Novos Baianos.

Naquele tempo, eles viviam como uma comunidade em Jacarepaguá, eram os nossos hippies da MPB. O ar de liberdade, fraternidade, otimismo e alegria, parte da proposta de um novo modelo de vida do grupo,  foi transportado para o disco, um clima de abra a janela e venha ver o sol nascer.

Com supervisão geral de João Araújo, coordenação musical de Eustáquio Sena, o LP vinha numa embalagem de luxo, com capa dupla e um texto explicativo de Galvão contando um pouco a história das músicas e dos integrantes do grupo.

O que faz desse trabalho um disco clássico, além da forma – uma vida alternativa com a liberdade sendo palavra de ordem – e do período em que foi concebido – o Brasil ainda vivia os anos de chumbo –  é a rica musicalidade do álbum, que reúne diversos estilos da música popular brasileira.

Especialmente o violão de Moraes duelando amigavelmente com os solos de Pepeu – é ali, em solos como os de Mistérios do Planeta, A Menina Dança e em Tinindo Trincando, que Pepeu cravou seu nome na lista dos melhores guitarristas brasileiros e mostrou sua capacidade como arranjador. Com ele, até o baião ficou rock.

O disco colocou os Novos Baianos na lista dos grandes nomes da música brasileira. A banda não chegaria até os anos 80, mas fez história até no carnaval baiano: o sucesso foi tanto que o grupo saiu em um trio elétrico e Moraes foi o primeiro a cantar em um trio elétrico, pois antes as apresentações eram apenas intrumentais.

Abaixo, um vídeo de Mistério do Planeta, tirado do filme “Novos Baianos Futebol Clube”, de Solano Ribeiro, originalmente gravado em 1973 no sítio Cantinho do Vovô, em Jacarepaguá. Paulinho Boca rouba a cena, no olhar e na voz.

Banda Sabonetes lança CD de estreia e alça voo

[Natasha Ramos]

Banda Sabonetes

[Natasha Ramos] A banda curitibana Sabonetes é daquelas com pretensão e empenho suficientes para alçar voo alto. Na ativa desde 2004 e levando um álbum recém lançado na bagagem, os quatro rapazes deixaram a capital paranaense, há menos de um ano,  para vir a São Paulo investir no trabalho de divulgação da banda.

“Estamos há cinco meses aqui. Julgamos que, após ter lançado o disco, era o melhor lugar para se estar e fazer uma boa divulgação”, comenta Alexandre, baterista da Sabonetes ao Palco Alternativo.

No começo, no entanto, a proposta da Sabonetes era muito mais simples: “Montamos uma banda para frequentar as festas sem pagar para entrar”, conta Alexandre. Ele, João Davi (baixo), Artur (voz/guitarra) e Wonder (guitarra) se conheceram no curso de comunicação social da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Assim como a proposta inicial, o nome da banda também era provisório e de brincadeira. “Acabou que a banda foi durando e o nome também”, comenta o baterista.

Músicas

Quando o assunto é música, os caras não tem preconceitos. “Ouvimos de absolutamente tudo”, comenta Alexandre. “Desde os cânones, Beatles e rock clássico, passando por muita música brasileira, seja rock, samba ou bossa, até os artistas da nossa geração, como Radiohead e Supergrass”. No entanto, é visível algumas influências mais fortemente no som dos caras, como Franz Ferdinand e  bandas que tocam um rock dançante, à Klaxons.

A banda acabou de lançar seu álbum de estreia  homônimo (independente), em 10 de janeiro, para download na internet no site http://www.sabonetes.net/ —o disco físico chegou às lojas na última quarta-feira (10).

Antes disso, porém, eles já levavam na bagagem o EP Descontrolada, lançado em maio de 2008, com três músicas, que estão no début. Destaque para os riffs de guitarra e os coros de “ô-ô-ô-uô-ô” da faixa “Enquanto os Outros Dormem” e a empolgante “Haicai”.

Além das músicas, os vídeos da banda demonstram um trabalho mais elaborado. “Como viemos da Comunicação, temos alguma intimidade com o meio audiovisual e sua produção”, comenta Alexandre, quem edita os vídeos da banda e estudou alguns semestres no curso de Cinema na Faculdade de Artes de Curitiba.

No MySpace do grupo (www.myspace.com/sabonetes) é possível encontrar alguns clipes e vinheta promocionais do CD.

Shows

Dos lugares onde já se apresentaram estão Porto Alegre, Santa Maria, Florianópolis, Joinville, Blumenal, Balneário Camburiú, Maringá, Belo Horizonte e São Paulo, além de diversos bares de Curitiba.

Ao que tudo indica, este é só o começo do vôo da Sabonetes que deve ir longe. A banda pretende viajar por todo o Brasil para divulgar as faixas do primeiro álbum e já tem fechado mini-turnês pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Outras datas de shows, você confere na videoagenda da banda:

Confira o trabalho da banda nos sites abaixo:

www.sabonetes.net

www.youtube.com/bandasabonetes

www.twitter.com/sabonetes

Som que vem do cerrado: a voz, atitude e diversidade de Ellen Oléria

 
 
 

 

A cantora Ellen Oléria

 

[por Carolina Cunha]

“Basalto que emana dos meus poros… a minha consciência é pedra neste instante”. Não por acaso esses versos saem da voz da brasiliense Ellen Oléria. A ciência classifica o basalto como uma rocha vulcânica, negra, dura e resistente, mas que forma vazamentos extensos. Um efeito parecido com o que Ellen provoca quando solta sua voz, com forte presença de palco. Uma pedrada elegante, que flui em busca da boa música.

Compositora e violonista, Ellen não é nova na cena e está na linha de frente das cantoras da capital federal. Faz música brasileira, com nuances de jazz e black music. Mas é sua voz, marcante e versátil, que brilha forte neste basalto sonoro.

Em alguns momentos, Ellen solta o vozeirão em frases galgadas na levada do hip hop ou num ritmo suingado – pura energia. Em outros, a ginga dá espaço para uma delicadeza, com melodias que chamam atenção. O segredo desta força, Ellen revela na lata: “Paixão”.

Tudo isso pode ser conferido em Peça, primeiro disco da cantora, lançado em 2009. O disco reúne um repertório acumulado em mais de dez anos de estrada e conta com a companhia de um quarteto competente: Rodrigo Bezerra (guitarra), Paula Zimbres (baixo), Célio Maciel (bateria) e Felipe Viegas (teclado).

Do Chaparral a GOG

“Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura”, reverbera Ellen e sua consciência negra na música Testando, um de seus hits. Ellen canta muitas identidades e experiências: mulher, negra, lésbica. Sua arte também é um meio para o engajamento e reflexão, com letras tão românticas quanto sociais.

Como muitas periferias brasileiras, o Chaparral, no Distrito Federal, é um lugar violento e um pouco esquecido. Ali, num lugar que forma “pedras duras”, Ellen passou toda a sua infância e adolescência. Escutou o forró e o baião do pai sanfoneiro, cantou num coro de igreja batista, arranhou sozinha os primeiros acordes de violão e tomou gosto pelo rap.

Formada em artes cênicas pela UNB, Ellen encarou a música como profissão bem cedo, aos 17 anos. Chegou a participar de algumas bandas até seguir voo solo. Hoje é dona uma carreira sólida e tem um público cativo que lota seus shows.

 O salto para a visibilidade do trabalho de Ellen contou com a força do maior trovador do rap made in Brasília: GOG. A parceria duradoura começou em 2006, quando a cantora participou da faixa Carta à mãe África, do disco Aviso às gerações. Hoje, a dupla frequentemente realiza shows juntos. GOG também participou do disco de Ellen e, com ele, ela se conectou definitivamente ao universo do hip hop. “Eu sou também fruto da transformação do hip hop nas periferias do Brasil”, revela.

Batemos um papo com a cantora sobre  música independente, parcerias e inspirações. Leia abaixo.

O disco Peça mistura muitos gêneros musicais e estilos. Como você se define como cantora?

Canto música brasileira. Isso já abre tantas possibilidades que eu adoro dizer isso. Entre afoxés, forrós, carimbos, todos os tipos imagináveis de sambas, choros, bossas, maxixes, emboladas, repentes, bregas, tecnobregas, marabaixos, xotes, toadas, eu estarei por aí. Sem esquecer o que a gente aprendeu de bom com a diáspora africana nas Américas e no Caribe como salsa, a cumbia, o merengue, o jazz, o funk, o rock, o hip hop. Resumindo, sou uma cantora curiosa.

Fale um pouco do seu repertório, como é seu processo criativo?

Meu repertório autoral se conecta muito com meu cotidiano. As poetas que moram em volta de mim (a sabedoria da minha mãe, por exemplo, coisas que ela aprendeu com a mãe dela), ou as mais distantes que se mostram nos livros ou em suas canções. As bandas, cantoras/es, instrumentistas, letristas isso tudo acaba dando caminho pras levadas que faço no violão também. Às vezes escrevo alguma coisa que fica guardada um tempo e um dia, esse verso se encaixa na levada que surgiu sem letra. Fico tão fissurada compondo que quando termina o dia parece que corri uma maratona.

Você lançou um cd independente. Como foi colocar a mão na massa, sem o apoio de uma gravadora ou produtores?

Ainda tem sido. Gravamos o disco. Agora precisamos fazer ele circular. Antes disso, foi muito suor e bateção de cabeça pra compor, pra arranjar e pra pagar as contas. Mas sempre contamos com apoio de muitas maneiras. Muita gente comprou esse projeto, entre músicos, equipe técnica, a minha produtora que se dedica mais a cada edital, compositores parceiros. E vamos ver até onde as pernas aguentam chegar. A música não precisa de CNPJ pra ser. Ela existe independente disso, fala por ela mesma. Então vamos fazer música, legal. Mas vamos aprender a fazer negócios também. 

Você disponibilizou todo o disco para download gratuito na internet. Como enxerga a questão dos direitos autorais? 

Popularidade nunca atrapalhou artistas. O desejo de ter sua música conhecida é partilhado pela categoria. E durante algum tempo tivemos caminhos restritos pra isso. A internet surge num momento interessante pra nós artistas já que potencializa o acesso a uma nova (ou antiga…) via de difusão. Não é necessário ser milionário pra o seu som tocar fora do Brasil. Basta um clique.

Você acha que esse tipo de distribuição pode ser prejudicial ao artista?

Muita gente se assusta com as redefinições da indústria fonográfica.  Acho que é um direito meu como artista disponibilizar minha produção gratuitamente, continuando o ciclo. Mas foi preciso recorrer a estratégias mais adequadas à realidade do mercado fonográfico que não abre as suas portas pra tod@s democraticamente. A gratuidade foi um caminho pra uma gestão sustentável.

Vimos você no show do Gog, da Mostra Cultural da Cooperifa, em São Paulo. Comente sobre a parceria com o GOG e a sua relação com o movimento hip-hop.

Aprendi a ouvir rap com meu irmão Dadá. Conheci discos do GOG assim. Tive a felicidade de receber um convite pra gravar a faixa Carta à mãe África. Aprendi a respeitar o movimento hip hop. Vi a revolução que o hip hop traz pras periferias dentro da minha própria casa. Muitas vezes fomos salvas por atitudes cantadas ao som daquele pancadão. O GOG é um padrinho. Um grande amigo. Me deu motivação pra acreditar na influencia rap do meu som. Porque por muito tempo não cantei os raps que eu escrevia. Até entender que o hip hop me acolheu de fato. Isso é pra dar orgulho, mas também muita responsabilidade porque represento essa casa.

Você é uma das poucas cantoras da MPB que se assume publicamente como lésbica.

Quando ouço a palavra “assumir” sempre penso em criança levando bronca de mãe depois de mentir sobre uma travessura: “Assume! Foi você que quebrou!”. Não assumi ser lésbica nesse sentido de tomar a carga. Só sou lésbica. Eu existo de muitas formas. Mulher, negra, escorpiana, cantora… lésbica é uma das muitas formas que me identificam.

É difícil ter esta atitude na música?

É difícil ter essa atitude sim. A música só retrata o que trazemos de bagagem. Porque a profecia está sujeita ao profeta. Os caras podem tranquilamente subir no palco e falar que essa música foi feita pra mulher que eles amam. E não tem medo de sofrer represálias. Eu também amo. E canto os meus amores. Infelizmente, muita gente me odeia por quem eu amo. Paradoxal. Mas verdadeiro. Que bom que não estou sozinha. Porque afinal, somos incontáveis nessa rede de solidariedade. Solidariedade é mais importante.

Em uma entrevista para o jornal Correio Brasiliense, você disse que cantava a história de uma mulher negra, criada no Chaparral e lésbica. Você já sofreu algum tipo de preconceito e se vê como um modelo de resistência?

Já sofri vários processos discriminatórios. De várias ordens. Mas ser modelo de resistência só quando todas nós formos. Quando reconhecermos que a Dona Maria que lava a minha roupa é tão importante quanto o meretíssimo juiz. Minha irmã é modelo de resistência. Minha mãe. Minha avó foi. Minha vizinha. Minhas primas. E essas incontáveis sobreviventes.

Sua carreira em Brasília parece consolidada. Você tem planos de turnê em outros estados como Rio, São Paulo? 

Temos muitos planos. Pouca grana. Mas temos, como diria Nina Simone, nossas mãos, nossos pés, nossa cabeça. Vamos dar um jeito e certamente vamos tocar por esse Brasil. Além de trabalhar por aqui, estamos abertas pra convites. (rs) Leve Ellen Oléria para o seu evento!

Quais são os planos para os próximos meses?

Tenho parado muito pra escrever. Temos o DVD todo captado e estamos correndo atrás de grana pra concluir o projeto. Espero que possamos lançar o DVD até agosto desse ano.Mais depressa devem sair alguns clipes. Vamos trabalhar o disco “Peça” até que ele comece a andar sozinho.E vamos que vamos que o som não pode parar! Salve moçada! Axé!

Para ouvir acesse: My Space ou o Site Oficial de Ellen Oléria.

Contato para shows: (61) 9901- 0099 ou suelenecouto@hotmail.com