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Apanhador Só lança CD homônimo com sons pouco convencionais

Banda Apanhador Só. Foto: Rafa Rocha

[Natasha Ramos] Em meio a um punhado de bandas fabricadas em série, uma ou outra consegue se destacar no cenário independente, oferecendo uma proposta sonora interessante e única (ou o mais próximo que se pode chegar disso, atualmente).

É o caso da Apanhador Só, banda gaúcha daquelas que não dá para se ouvir apenas uma vez. Desde que minhas mãos tocaram o CD de estreia perdi a conta de quantas vezes o escutei.

A primeira vez que os vi foi há algumas semanas no show que realizaram no Tapas Club (R. Augusta – São Paulo). Chamou-me a atenção o som particular que saia das caixas de som e me atingia em cheio. Seria rock com pitadas de música brasileira ou música brasileira com nuances roqueiras? Difícil definir.

O Palco Alternativo conversou com a banda para conhecer um pouco mais do trabalho dos caras. O Raio-X da Apanhador Só, você confere a seguir.

Início e nome

A banda com o nome “Apanhador Só” existe desde os tempos de colégio, conta o guitarrista Felipe Zancanaro. Mas, o marco inicial foi o ano de 2006, quando lançaram o primeiro EP, intitulado Embrulho Pra Levar.

“Conta-se que para inscrever a banda em um concurso do colégio, o Marcelo Souto (integrante da formação colegial/inicial da Apanhador) teve que inventar esse nome às pressas na última hora e sair correndo com a ficha de inscrição para entregar a tempo. Eu não estava lá e ele se recusa, mesmo sob tortura, a contar detalhes de como se deu a criação do nome”, conta Felipe.

Além de Zancanaro, completam a formação da banda Alexandre Kumpinski (voz e guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martins Estevez (bateria).

Músicas

Definir o som da Apanhador é uma tarefa difícil. Ao longo do CD homônimo, lançado no dia 21 de abril, no Teatro Renascença, em Porto Alegre (RS) —e disponibilizado para download no site http://www.apanhadorso.com— , o máximo que se pode dizer é que é um disco de rock, voltado para ritmos brasileiros.

“Gostamos de ter liberdade para levar nossa música na direção que achamos interessante na hora, sem nos prender muito. Flertamos com tudo que passa pela nossa frente, do tango ao baião”, comenta Felipe.

Produzido de forma independente, o CD Apanhador Só teve o financiamento do FUMPROARTE, Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre.

Para um CD independente, é visível o profissionalismo e capricho com que foi feito. Desde a concepção gráfica: a direção de arte e a ilustração da capa, que ficou a cargo de Rafa Rocha, e as ilustrações dos cartões do encarte (o CD vem com cartõezinhos que podem ser editados ao gosto de quem os estiver manuseando), de autoria de Fabiano Gummo; até a produção musical que ficou por conta de Marcelo Fruet. O disco ainda contou com a colaboração do poeta gaúcho Diego Grando, do compositor Ian Ramil e Estevão Bertoni, vocalista da banda Bazar Pamplona.

Além desse álbum, a banda leva na bagagem dois EPs: o primeiro, já citado Embrulho Pra Levar, de 2006, e o segundo, de 2008, apelidado carinhosamente pelos integrantes de “EP Verde”.

Instrumentos inusitados

Uma curiosidade da Apanhador Só é o fato de, além dos instrumentos convencionais (bateria, guitarra e baixo), nas músicas, é possível detectar outros elementos “musicais” inusitados.

“Boa parte das músicas do disco tem o que a gente chama de ‘percussão sucata’. A Carina Levitan se encarregou delas quando veio de Londres, onde mora agora, para Porto Alegre”, conta o guitarrista.

Assim, ao longo do disco homônimo é possível encontrar sons de máquina registradora e projetor de filme, como na faixa “Um Rei e o Zé”; em “Pouco Importa”, Carina toca grelha de churrasco; em “Maria Augusta” tem pato de borracha, panela, chave de roda, sineta de recepção e apito; “Peixeiro” são interruptores de luz e sons eletrônicos; “Bem-me-leve” tem roda de bicicleta (a que está na capa do disco) e sineta de recepção; em “O Porta-retrato”, furadeira; “Balão-de-vira-mundo” traz balão de aniversário; “Jesus, o Padeiro e o Coveiro” tem som de lata de rolo de filme e sineta de recepção; em “Origames Over”, fita adesiva, grampeador, papel rasgado e panela; “Vila do ½ dia” tem sacola plástica; e, finalmente, “E Se não Der?” tem som de móbile de chaves.

A ideia de inserir esses “instrumentos” nas músicas surgiu na casa de Alexandre, antes mesmo de ele entrar na banda. “Naquela época, os integrantes ensaiavam na garagem dele e lá tinha uma porrada de cacaredos de todos os tipos. Em um improviso, eles começaram a bater de lá, arranhar de cá, chutar ali, amassar aqui e gostaram do resultado. Daí foi só desenvolver a idéia, encontrando os espaços certos para cada bugiganga e transportar o aparato todo para os shows. Hoje em dia, por sermos um quarteto, levamos só a bicicleta para o palco e fico encarregado e toca-la”, conta Felipe.

Shows e Futuro

No histórico de apresentações, a banda coleciona lugares como o MAM (Museu de Arte Moderna) do Rio de Janeiro, abrindo o show da Maria Rita, juntamente com outras duas bandas vencedoras do festival da gravadora Trama. Recentemente, estiveram na Feira Música Brasil – Circuito Off, em Recife, e também já tocaram em diversas casas pelo interior e capital do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Presidente Prudente (SP) e Florianópolis (SC).

Com o lançamento do álbum, a banda pretende investir na promoção do disco. “Neste ano, pretendemos seguir divulgando o disco, fazer o maior número de shows possíveis e, provavelmente, gravar algum videoclipe de alguma música do disco”, comenta.

http://www.myspace.com/apanhador

www.apanhadorso.com

Kiko Dinucci: para todo os lados a arte sopra

[por Andréia Martins]

Músico que faz cinema. Artista-plástico que canta. Violão que desenha. Cineasta que versa. Imagens que compõem música. Arte soprando para os quatro cantos no chão de São Paulo.

Assim como o nome da canção de Lenine, Todas elas num só ser, todos ‘eles’ descritos acima resumem-se a um só: ao compositor e músico Kiko Dinucci.

“Tanto a música com a arte como um todo geraram muita solidão e ainda é assim. Comecei sozinho, mas com o tempo fui achando os meus iguais e aprendendo muito com eles, cada pessoa com quem eu toco é uma universidade (no bom sentido) pra mim. Gosto de trocar. É muito rico você poder se comunicar com pessoas de diferentes  nacionalidades e etnias,  e credos, chega a ser divino o dom que o ser humano tem de se comunicar com arte”, diz em entrevista ao Palco Alternativo.

E é assim que Kiko se comunica: por meio de imagens, sons e palavras. Hoje, além das diferentes formas de arte, Kiko se divide entre diferentes projetos na música: além de compositor e músico, divide com Douglas Germano as criações trágicas e cômicas do Duo Moviola, integra o Bando AfroMacarrônico, com o qual lançou o disco  Pastiche Nagô,em 2008, e faz uma sólida parceria com a cantora Juçara Marçal, com a qual gravou o álbum Padê, e, mais recentemente, no final de 2009, lançou o disco Na Boca dos Outros.

Assim como em outros trabalhos, o disco reforça a boa parceria de Kiko com a cantora Juçara Marçal. “Juçara, pra mim, é a maior cantora que conheço. O que interessa pra ela é arte, não glamour, ser a cantora da mídia, nada disso. É só ver a postura dela no palco, é um compromisso direto com a arte, o resto que se exploda. Ela no palco vai se transformando, começa a crescer e encosta a cabeça no teto. O disco Padê foi o nosso primeiro trabalho, foi o som que moldou tudo o que viria na sequência, os elementos da cultura africana e tudo mais. Estamos pra gravar um novo CD chamado Metá Metá, em parceria com Thiago França”, conta Kiko.

Na Boca dos Outros

CD Na Boca dos Outros: "músicas antigas, tinham teias de aranha", brinca Kiko

“O disco novo só tem meu nome mas não é solo. Quase todos meus discos levam meu nome, ou com a Juçara Marçal, ou Bando AfroMacarrônico. Todos tem a minha presença mas nenhum deles é 100% solo. Em todos a parceria é fundamental, isso fica ainda mais gritante com o Duo Moviola, com a presença do Douglas Germano. Trabalho sempre com parcerias, sejam elas com compositores, produtores ou músicos”, diz.

Para este trabalho, composto de 14 faixas, Kiko se cercou de diferentes cantores e cantoras como Fabiana Cozza, Maurício Pereira, Bruno Morais, Juçara Marçal, entre outros, cruzando ritmos brasileiros e africanos em uma linguagem voltada para o samba.

“As músicas do Na Boca dos Outros são muito antigas, a maioria de quase 10 anos atrás. O que eu fiz foi tirar da gaveta, deixar os novos arranjos determinantes no aspecto criativo e chamar as pessoas que tinham a ver com cada faixa. O fato de uma outra pessoa cantar daria uma roupagem nova a mais a essas velhas canções”. Para ouvir: http://www.myspace.com/kikodinucci.

Entre tantos lados, o lado A – Afro – de Kiko

Kiko é muitos. Já foi hardcore ao assumir a guitarra em uma das mais importantes bandas do hardcore paulista, o Personal Choice, em sua cidade natal, Guarulhos.  Aí trocou a guitarra pelo violão, e mergulhou no samba, na sua brasilidade, no seu lado afro.
“Meu interesse pela cultura afro veio no dia em que eu me olhei no espelho e falei pra mim mesmo: sou preto, no Brasil todo mundo é preto, seja sua pele clara ou escura, então vou atrás da minha história. E fui atrás da minha memória ancestral e descobri meu ancestral mais antigo, que é meu Orixá Logun Edé. Mergulhei num mar de informação infinito”.

Desse mergulho saiu o documentário Dança das Cabaças, dirigido por Kiko, um retrato poético sobre a paradoxal divindade Exu e as formas como o brasileiro vê esse personagem que, na África, era caracterizado como o princípio da vida.

O filme passa pelas diversas vertentes das religiões afro-descendentes, dos candomblés (de tradição Nagô, Gege, Bantu), Tambor de Mina, passando pela Umbanda e Quimbanda. Assista ao filme em http://www.dancadascabacas.blogspot.com.

Identidade pessoal descoberta, na música, Kiko parece não ter dúvidas de quem é. Apesar de reconhecer outros elementos, especialmente ritmos afros, na sua música é tudo samba. “Posso compor um thecno brega  que no fundo vai ser um samba, só sei fazer assim, graças a Deus”.

Raio-X: Conheça a bossa’n’roll da Bicicletas de Atalaia

 

Bicicletas de Atalaia

[Natasha Ramos] Com pouco menos de um ano de existência, a banda Bicicletas de Atalaia já leva na bagagem um CD Demo e se prepara para lançar um EP com faixas inéditas no final de maio. Dentre as apresentações, duas foram no Projeto Cedo e Sentado, do Studio SP —e em uma dessas vezes o show foi anunciado no programa do jornalista Gilberto Dimenstein, na CBN. Além disso, a Bicicletas saiu na revista Guitar Player como um dos 10 destaques do MySpace, devido à música “Insomnia”, resenhada e elogiada pelo veterano guitarrista Ciro Visconti. Confira o Raio-X da banda.

Integrantes, influências e nome 

A Bicicletas de Atalaia saiu da cabeça dos irmãos Leo e Bruno Mattos, depois do término da banda Rockassetes, da qual faziam parte. O que começou como um projeto na metade de 2009, foi se consolidando como banda após a entrada dos outros três integrantes, que completaram a formação.

“Desde o fim da Rockassetes, Leo e eu já estávamos trabalhando as músicas da Bicicletas, criando arranjos e pensando no conceito do trabalho. Nesse período, estávamos estudando numa escola de música aqui em São Paulo e foi lá que conhecemos toda a rapaziada. Na verdade, o Renan (Sax/Flauta) já havia tocado conosco, fazendo algumas participações na Rockassetes, o Kaneo (Guitarra) e o Ilya (Baixo) conhecemos depois”, explica Bruno Mattos ao Palco Alternativo.

A Bicicletas nasceu em São Paulo, mas, com exceção de Ilya, os integrantes vieram de outras cidades: os irmãos Mattos são de Aracaju (SE), mas se mudaram para a Pauliceia em 2005, Renan, de Bragança Paulista (SP), mora na capital desde 2009, e Kaneo, apesar de ter nascido no Rio, mora aqui “desde sempre”. 

O nome da banda, eles explicam, “veio da influência da nossa cidade, Aracaju, cuja praia mais famosa é a Praia de Atalaia, e do desenho As Bicicletas de Belleville, que nos influenciou muito no começo, desde a estética aos direcionamentos musicais. Além disso, ‘Atalaia’ também significa ‘ficar de olho’, ‘de tocaia’, ‘observar’, o que dá uma curiosidade legal ao nome”, explica Bruno.

Músicas, vídeos e shows 

Assim como a origem dos integrantes, as inspirações musicais da banda são bem diversas. “Ouvimos quase tudo, de jazz à música pop. Para citar influências diretas na hora de compor: Belle & Sebastian, João Gilberto, Caetano, Novos Baianos, Beatles, Blur, Jorge Ben, Los Hermanos, Wilco e por aí vai.”

O resultado desse caldeirão é claramente notado nas músicas da Bicicletas. Com um pé na bossa-nova e o outro no rock’n’roll, eles tocam uma espécie de “bossa’n’roll”, com músicas mais calmas, vocal suave e linhas de guitarra mais acústica, temperadas ao som de flauta e sax. Com pouco menos de um ano de vida, a Bicicletas já tem um CD demo gravado com 5 faixas que podem ser conferidas no MySpace e Tramavirtual —onde também é possível baixar as músicas. Eles entraram em estúdio novamente para gravar mais 5 faixas que devem entrar no EP homônimo, com lançamento previsto para final de maio.

Dentre as músicas, destaque para “Diga-lhe que mando a meia” —com a qual foram classificados, em fevereiro de 2010, para o 17º Festival de MPB de Certame da Canção do Conservatório de Tatuí— e “Alcoholic Dreams” —cujo videoclipe, dirigido por Rafael Costello (ex-Rockassetes), pode ser conferido aqui.

Além deste, a banda fez alguns vídeos em stop motion, com produção de Leo Mattos. “A intenção é melhor divulgar nossos shows por meio desses curtas (geralmente de 1min30s) de uma maneira divertida”, explica.

Além da recente apresentação no Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos” de Tatuí, a Bicicletas já tocou no Studio SP, Clube Berlin, Livraria Cultura e Casa do Mancha. “O próximo passo é buscar os festivais independentes Brasil afora, que são fantásticos para intercâmbios entre bandas e mídia especializada”, conta Bruno.

 

Jonathan Richman, o trovador moderno

Jonathan Richman durante apresentação no SESC Pompeia. Foto: Natasha Ramos

[Natasha Ramos]  Jonathan Richman, cantor e guitarrista norte-americano, fundador da extinta Modern Lovers, veio pela primeira vez à América do Sul para tocar para um público de moderninhos na noite de quinta-feira (15/4), na choperia do SESC Pompeia.

O músico underground, que influenciou nomes como o ex-líder do Velvet Underground Lou Reed, Brian Eno, Joey Ramone, David Bowie, Elvis Costello, Clash e Sex Pistols, acompanhado de seu violão e seu único companheiro de banda, o baterista Tommy Larkins, reuniu admiradores moderninhos que, ao final da apresentação, dançavam sem parar.

Inevitável comentar o gingado e carisma de Richman que cativou a todos os presentes. No começo ele arriscou algumas palavras em português, mas logo depois, falando em inglês, disse que não sabia falar muito bem a língua tupiniquim, apesar de falar outras como espanhol, itaniano, francês…

Destaque para as músicas “Pablo Picasso”, “Old World”, a maravilhosa “Because her beauty is raw and wild” e a animada “I Was Dancing in the Lesbian Bar”, com direito a dancinhas e “Legals” de Richman e palmas da galera que acompanhava a batida da música.

Perto do final da apresentação, os rapazes com suas camisas xadrez e bigodes dançavam animadamente bem na frente do palco. Jonathan, então, termina a musica, faz menção de sair, mas o público clama por pelo menos mais uma música. O baterista já havia saído, e Jonathan se vê tendo de ir, mas demonstrando vontade de permanecer e atender ao pedido de seus fãs. É então que ele, sem violão, sem bateria, nem cowbells, nem instrumento algum, cantarola uma música em italiano como um trovador moderno e se despede elegantemente com um “Arrivederci!”.

Histórico

Em 1970, Jonathan formou a The Modern Lovers, uma banda que marcou a história do gênero nos anos 70 sob a influência do Velvet Underground, e da qual saíram os membros do Talking Heads e The Cars.

Em 1979, Richman começou carreira solo e embarcou em estilos sonoros mais próximos do folk country a partir de uma ótica new wave. Com mais de 20 CDs lançados, ele nunca parou de compor e de fazer apresentações em todo o mundo.

Ao longo da carreira Richman foi além da formação de banda e concentrou-se nas letras, além de reduzir a instrumentação de suas canções para tocar com o acompanhamento macio de uma bateria. Sua obsessão pela simplicidade acústica o torna um dos artistas mais raros do universo musical.

Em 1994, lançou um álbum totalmente em castelhano: “Te vas a emocionar”, repleto de canções mexicanas, espanholas e equatorianas, entre outras, que o influenciaram de maneira marcante. Ele também compôs em italiano e francês.

Amigo e colaborador de Lou Reed, adorado pelos Ramones e idolatrado pelos irmãos e cineastas Farrelly, que o incluíram no filme “Something About Mary”, Jonathan deixou o palco, deixando saudade em seus admiradores.

Jonathan Richman e o baterista Tommy Larkins. Foto: Natasha RamosFoto: Natasha Ramos

Foto: Natasha Ramos

Jonathan tocando cowbell. Foto: Natasha Ramos

Quarto Negro: quatro rapazes, melancolia anticlichê, gretsch guitars e por aí vai

[por Andréia Martins]

Quarto negro. Pode ser qualquer coisa. Em uma rápida busca no Google, você vai descobrir que pode ser desde nome de música de Amado Batista ou Leandro e Leonardo até um simples quarto sem luz.

Por aqui, estamos falando mesmo é da banda Quarto Negro, formada por Eduardo Praça (vocal, guitarra e piano, ex-Ludovic), Fabio Brazil (baixo e voz), Thiago Klein (piano) e Diogo Menichelli (bateria). O nome não surgiu de nenhuma das influências acima ou de um apagão, como conta Praça.

“O nome surgiu de um documentário que assisti sobre a vida do Johnny Cash, do qual, em um capítulo da sua carreira, tomado por sentimentos extra-naturais, ele acabou por pintar um quarto de hotel inteiro de preto, movéis, parede, tudo. Aquilo me deixou tão interessado que surgiu a ideia. Às vezes, enxergam isso como uma manifestação depressiva ou algo do tipo, mas sempre me identifico com a expressão de liberdade e espontaniedade do caso”.

Se dependesse do som, dificilmente você diria que o Quarto Negro é uma banda brasileira. Nitidamente influenciados pelo jazz, blues e melancolia – mas sem soar deprê -, a banda surgiu em 2007 e, depois de dois EPs, é dela um dos discos nacionais mais esperados de 2010.

Os motivos são simples: uma sonoridade cheia de personalidade e mais denso, combinando guitarras, piano, metais e letras que falam de relacionamenos, perdas, e por aí vai, e Praça que, ex-integrante do Ludovic, já tem uma legião de fãs prestando atenção nos seus próximos passos.

Inicialmente, o Quarto Negro era uma banda de um homem só (Praça). Uma temporada ao lado de Klein em Nova York começou a dar novos rumos à banda. Na sequência, um convite irrecusável de um amigo, cineasta, para compor uma música tema – Zoroastro – e, tempos depois, o Quarto Negro já não era uma banda de um homem só.

“Nunca foi opção iniciar e tocar as coisas por conta própria. Em determinado momento, artísticamente, essa me pareceu a solução mais viável, mas não tardou pra perceber que a soma de pessoas só enriqueceria as coisas. Hoje em dia, posso dizer que tenho como companheiros, pessoas especiais e muito agregadoras. Seguramente, devo muito desse momento ao Thiago, Fabio e Diogo”, conta Praça em entrevista ao Palco Alternativo.

Toda a busca por algo novo e mudança do passado com o Ludovic, precisou de um tempo para Eduardo assumir outro projeto, o que as temporadas em NY e San Telmo, em Buenos Aires, ajudaram bastante. Nas palavras do próprio Praça, não era algo que faltava, mas que estava mal assimilado:

“Na verdade, acho que tinham coisas até demais. Os novos ares, serviram mais pra me desvincular, do que pra agregar, por incrível que isso soe. As pessoas se apegam muito ao fato da idéia de fugir buscando novas coisas pra si, quando na verdade, você precisa mesmo é de um tempo pra desfazer o nó todo que estava feito” , conta ele, sem deixar de lado toda a bagagem do Ludovic.

“Devo muito, talvez quase tudo, ao anos que passei com o Ludovic. Se existiram pessoas que me ajudaram e me formaram, como músico e compositor, foram eles. Não me canso de mencionar, que as coisas aconteceriam de forma muito mais devagar sem essa experiência musical e espiritual”.

Fora do Brasil

Além de vigor, a temporada no exterior trouxe novas experiências para a banda. “O fato de estar lá com o rosto aberto de forma tão contundente nos colocou em um patamar acima, definitivamente. Embora toda a barreira linguística e aspectos culturais terem movido menos do que eu imaginava, o fato de estar entregue há algo que apenas você acredita e entende, mexe mais com as pessoas do que qualquer interpretação fictícia do que você gostaria de ser”, diz Eduardo sobre os shows nos EUA.

A identificação do público talvez deva-se ao fato de que a música do Quarto Negro tem algo do rock alternativo feito lá fora, mais do que influências brasileiras. Ouvindo, a sensação que se tem é de que a música soa perfeita par a fog londrina ou para os dias nublados de Sampa.

“Não chega a ser algo que a gente discorde plenamente, mas não sei até que ponto nos vemos influenciados por algum clima que não nos pertence, seja lá londrino, porteño ou algo do tipo. Desde que me juntei aos meninos, sempre esperamos essa recepção de público/imprensa apontando a melancolia, mas nunca foi algo que procuramos ou que realmente acreditávamos, as coisas surgiram de forma natural e involuntária”, diz Praça.

EPs e próximos passos

Deposi do EP Zoroastro, uma das músicas mas impactantes do grupo, o Quarto Negro recrutou um time de peso para o EP seguinte,  Bom dia lua:  Chuck Hipolitho e Kevin Nix.

Praça conta que a parceria com Chuck já estava programada mas as agendas adiaram um pouco o encontro, que só foi acontecer no final de 2009. Com relação ao Kevin, “o Fabio, quando morou nos Estados Unidos, fez uma amizade, que por ironia e sorte do destino, dias antes da masterização no Brasil, nos levou aos engenheiros do estúdio em que o Big Star costumava trabalhar em Memphis. O contato foi rápido e produtivo”.

Uma das diferenças entre os EPs é a presença do piano de Thiago, que ganhou mais destaque nas canções no segundo EP, aumentando, de certa forma, o tom melancólico das canções.

Quanto ao próximo disco, Eduardo não dá muitos detalhes, mas por algumas entrevistas que tem dado, pode-se imaginar que os meninos pretendem dar um passo à frente, a exemplo do que fizeram nos dois EPs.

“Estamos em processo de composição. Pra ser sincero, esse assunto é tratado com muita ansiedade e expectativa. Estamos transbordando pra ter esse disco em mãos. Não temos os maiores detalhes do mundo pra dar, mas podemos adiantar que ele sai ainda em 2010, e que a gravação não deve ser feita no Brasil”.

Para ouvir, acesse: http://www.myspace.com/quartonegro.

Raio-X: Hey Hey Hey São os Garotas Suecas

[Natasha Ramos] Os paulistanos da Garotas Suecas tocam um “rock’n’roll barato total”, com forte influência musical do que fazia a turma da Jovem Guarda, na década de 60. Em 2008, eles ganharam o prêmio Aposta MTV do VMB. Foram mencionados em publicações como o New York Times, Time Out e na revista SPIN. A banda já fez quatro turnês pelos Estados Unidos e uma apresentação na Austrália. E agora, foram convidados mais uma vez para tocar no festival SXSW, no Texas. Já ouviu falar deles? Então, confira o Raio-X com a banda.

Início em duas versões

Tive a oportunidade de entrevistar o baterista Antônio “Nico” Paoliello duas vezes. Uma, quando ainda trabalhava no Virgula, em meados de 2008, e outra há algumas semanas. Ironicamente, ele me deu duas versões para como os integrantes se conheceram e resolveram montar a banda. O que coincide, no entanto, é o ano de formação do GS: 2005.

“Perdido [Fernando Machado, baixo/voz] conhecia Sal [Guilherme Saldanha, voz], que conhecia Tommy [Tomaz Paoliello, guitarra e voz], que é irmão de Nico e conhecia Sesa [Sérgio Sayeg, guitarra/voz], que saiu da banda para seguir carreira militar. A Irina [Chermont, piano/teclado] ninguém conhecia, pusemos um anúncio no jornal procurando uma garota loura, sueca e que tocasse teclado. Eis que apareceu uma”, contou há cerca de dois anos.

Já, desta vez, quando voltei a fazer a pergunta, ele respondeu: “O Perdido acabou me conhecendo numa sala de bate-papo e, por coincidência, nós dois tínhamos acabado de sair de nossas respectivas bandas. Depois de algumas semanas fazendo ensaios de “cozinha”, o perdido me apresentou o Saldanha, que veio tocar gaita em nosso projeto e, mais tarde, tornou-se o vocalista. Foi ele mesmo que nos apresentou a Irina. Quando já estávamos tocando, vimos que precisávamos de guitarras. O Sesa conhecia o Tomaz e já tinham tocado juntos. O primeiro dia em que nos encontramos foi em uma festa funk (norte americano) e lá marcamos nosso primeiro ensaio”, explicou em sua mais recente versão.

Qual das duas versões é a correta? Não importa. O que importa são as músicas. O “rock’n’roll barato total”, como eles mesmos definem o som da banda, tem influências, entre outros, de Sly & The Family Stone, Rolling Stones, Mutantes, Gal & Os Brazões, The Meters, Curtis Mayfiled e, claro, Roberto Carlos, em sua fase dourada.

Músicas

A banda leva três Eps na bagagem: Hey Hey Hey são os Garotas Suecas (2006), Difícil de Domar (2007) e Dinossauros (2008). “Estamos gravando nosso primeiro disco (Long Play) para assim o ouvinte pirar no som dos Garotas Suecas por mais de cinco canções”, comenta Nico.

[Curiosidade: A faixa ‘Não Espere Por Mim’, presente no Difícil de Domar, foi gravada nos estúdios da Trama, dentro do programa Radiola, no bloco ‘Doze horas no estúdio’.]

Segundo Nico, as músicas mais pedidas durante os shows são “Codinome Dinamite”, “Acho que Estou me Tornando um Zumbi”, “Banho de Bucha” e “Olhos da Cara” —as duas últimas serão lançadas no disco.

Shows

Eles costumam tocar em casas de shows alternativas e em festivais de bandas independentes. Recentemente, o Garotas fez uma apresentação no SESC Vila Mariana, para um público mais familiar, que os ouvia sentados em suas poltronas.

“É engraçado, mas para esses shows, nós temos espaço para fazer uma abordagem um pouco diferente da de shows em inferninhos e clubes (antes) enfumaçados. Podemos nos concentrar mais em timbres e dinâmicas diferentes, assim como set lists”, comenta o baterista.

No mês de março, a banda rumou para o festival texano South by Southwest (SXSW) e se apresentou em outras cidades dos EUA. “O festival é gigante e pessoas do mundo todo vão para Austin para ouvir coisas novas, fazer contatos, etc. O público da ‘gringa’ reage de um jeito diferente, talvez por não entender a letra ou pela ginga brasileira que querendo ou não nós temos. Por isso é sempre legar ver a gringolândia balançar o esqueleto de forma nada engonçada”, conta.

A agenda da banda e as músicas podem ser conferidas no MySpace da Garotas Suecas (www.myspace.com/garotassuecas)

Os planos para esse ano se resumem basicamente a lançar o disco completo e sair tocando onde der. “Queremos continuar dando shows pelo Brasil e EUA e outro continente à sua escolha”.